Evocação da rosa

(Para Yemanjá – no seu décimo aniversário)
Era uma vez uma rosa 
que não era vegetal 
nem rosa mineral
carecia até da cor de rosa
era uma gata formosa
negra amarela e brancosa
irrequietamente caprichosa
vestida de suave pêlo multicor
Bichana terrivelmente amorosa
dos laços dos seus encantos
nenhum gato jamais se livrou 
pelos telhados miava dengosa
suspirava a noite inteira 
seduzindo namoradeira
toda a gataria ao
luar da lua alcoviteira
Certo dia Rosa pariu 
uma ninhada de gatinhos 
de várias cores engraçadinhos
os mais lindos eram os pretinhos 
mamavam de patinhas entrelaçadas
ronronando de olhos cerrados
boquinhas rosadas coladas
às rosadas tetas de Rosa
Num desses momentos
um gatão assassino
pêlo sujo debotado
miando feio saltou felino
matando gatinho por todo lado
A mãe valente e briosa
socorri de porrete na mão 
ajudei a defesa de Rosa
esbordoando estridente 
perseguindo o ladrão
ele fugiu espavorido
um gatinho levando nos dentes
outros sangravam na agonia
Rosa fuzilava os olhos dementes
miando plangente a dor que lhe doía
noites a fio seu gemer se ouvia
ó doce e carinhosa Rosa
era de cortar o coração 
ver-te enlouquecida 
recusar enfurecida
aquela felina traição
ir definhando entristecida
até a completa inanição
Rosa cheirosa e macia
que ao morrer no
meu jardim plantei
sob a terra desapareceu
aos cuidados da minha
pobre primavera de 
uma gata demente e morta
a rosa-gata enternecida
em rosa-flor floresceu
foram ambas a 
única rosa que 
a infância me deu

Buffalo, 30 de janeiro de 1981
(antecipando o 15 de setembro de 1981)
– Abdias do Nascimento, em “Axés do sangue e da esperança: Orikis”. Rio de Janeiro: Achiamé; RioArte, 1983, p. 55, 56 e 57.


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