A paisagem de manhã

Ânsia de paz de noites desertas,

Desejo de sentir o tranquilo positivo

Nas intenções indevassáveis,

Na voz acima de todos os sons,

Acima do estrondo universal da bomba fratricida.

Ânsia de repouso final

No exaspero de mãos unidas pelo medo,

Pânicos imprevistos

Calando todos os instantes, todas as idades,

Chorando o nosso jamais.

Olhos outrora amigos

Impercebem em pastoso sangue.

Que gerações sofridas surgirão

Na espessa aflição de tão grandes mares

De ódio, ambição, vingança

Agora vêm dos ossos à procura do sexo,

Fúria de possessão inexplicável

Invade o campo de alheias propriedades

Lavradas no crime

E plantadas por tiranas mãos,

Heróis do século repetindo o que os outros foram.

Energias, vidas, mocidades

Flutuando sem rumo nas glórias e nas medalhas

Da nação em queda vertical solo abaixo

Cérebros falidos comandando existências em floração,

Numerando interminável esteira

De vassalos de línguas arrancadas.

Braços sem dono, ventres desapropriados,

Espíritos transformados em detritos pestilentos

Alimentam o tétrico destino

Da técnica contra o homem.

As estradas já não pertencem aos pés mansos,

O veio da riqueza, em mãos feudais.

No paralelo de horizonte sombrio

Levanta-se o vulcão que derrubará presídios e asilos

Para criar o grande rio de mortos putrefatos.

Não haverá tropas guerreiras contra ninguém

Apenas climas não sentidos dentro de atmosferas mortas

Desprezadas pelo vento livre.

E no âmago do âmago

O pranto medroso da futura criança

Presa ao ventre da terra,

E a revolta do jovem mudo,

São figuras oscilando nas trevas da Criação.

No profundo dos tempos

A ordem técnica recua medrosa,

Ouve o grito severo

Trazido pelo ar que balançou os corpos enforcados.

No fim, o estupro de cada homem

Violentado pela técnica

Dos inventos de guerra.

Em torno de todas as mortes

A vida, em minúsculas centelhas,

Forçará as trevas

Que cobrem o homem eternamente insepulto.

– Adalgisa Nery, in: Erosão, 1973.


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