Abandono

A exaustão faminta 
Procura elementos ainda vivos no meu ser 
Talvez guardados em escuros vácuos 
Que carrego sem saber. 
Alimenta-se do sopro das imagens 
Desenhadas pela minha imaginação 
Pelo tato dos meus sentimentos, 
Pelo pânico do desconhecido. 
Aparece como febre constante dilatando as minhas carnes 
Descoloridas e sem sabor de vida. 
A exaustão sobe pelos meus pés, 
Cobre os meus gestos incipientes, 
Prende a minha língua, 
Suga o meu cérebro, ninho de aranhas em fogo, 
Pousa no meu cabelo como morcego. 
Exaustão que funga o ar, que saqueia o meu silêncio, 
Último repouso nos meus vácuos devassados. 
– Adalgisa Nery, in: Erosão, 1973.


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