Aspiração

Antes que vingue outra esperança

Quero as sombras do branco espesso.

Antes que mais uma insônia se cumpra

Quero o torpor no abismo indecifrável

Do espírito amortalhado.

Antes que o pensamento acorde

E descubra os espaços petrificados,

Quero narcotizar-me sem sonhos

E deitar-me no mundo sem sombras,

Sem palavras nem gestos.

Antes que alguma crença me recolha,

Antes que eu entenda o obscuro,

Antes que o sensível me assalte,

Antes que eu distinga na lonjura

A morte da estrela cintilante,

O êxtase da solidão vertical,

Quero ser coisa sem motivo

Entregue aos ventos sem destino.

– Adalgisa Nery, in: Erosão, 1973.


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