Cantiga de ninar

Repousa. Descansa. Virá um dia um vento

Que arrancará a tua balançada alma do teu corpo

E jogará a tua balançada alma do tempo.

Que levará teus braços para as nuvens distantes

E deixará tranqüila tua orelha

À borda das águas cantantes.

Um vento suave como a caricia de uma doce mão

Que se envolverá no brilho dos teus cabelos

Que descerá desde o teu cérebro

Até o fundo do teu amargurado coração.

Cairá sobre ti, como a noite sobre a mata e sobre as flores

Desdobrará as formas dormidas

Deitar-se-á sobre teus sentidos

E estancará tuas dores.

Um vento que levará para a eterna distância

Os dolorosos solavancos de teu espírito

E os pedaços melancólicos de tua infância.

Repousa. Descansa. Aconchega no sono teus pensamentos

Que este vento chegará, não falta muito

Transformará em luz a tua treva,

Dentro de rapidíssimos momentos.

– Adalgisa Nery, in: Mundos Oscilantes, 1962.


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