Escultura

Eu já te amava pelas fotografias.

Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,

Pelo teu olhar vago e incerto

Como o dos que não pararam no riso e na alegria.

Te amava por todos os teus complexos de derrota,

Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas

E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.

Te falei um dia fora da fotografia

Te amei com a mesma ternura

Que há num carinho rodeado de silêncio

E não sentiste quantas vezes

Minhas mãos usaram meu pensamento,

Afagando teus cabelos num êxtase imenso.

E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar

Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia

Que a verdade da vida sempre pede

E que interminavelmente tens que dar!…

– Adalgisa Nery, in: Mulher Ausente, 1940.


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