O país do poeta

A paisagem tem cores do avêsso

E as estrelas sobem pelas montanhas como veias

Aguando um seio de mulher.

As quatro línguas do vento

Conversam sobre o amor, o ódio, a vida e a morte.

Os arcanjos cruzam o firmamento de lado a lado,

Os pássaros soluçam como inconsoláveis viúvas.

Os peixes cantam como rouxinóis nas ramas floridas.

Um sirena lamenta-se no corte da noite

E o ruído de possantes motores trepidam o eixo universal

Como o nascimento de um vulcão.

As flores dos jardins cercados são orvalhadas como lágrimas inocentes

E da lua de São Jorge montado no seu cavalo branco

Para velar os mortos e os desesperados.

Um sentimento de pureza sobre o olhar dos arrependidos,

As mães alimentam seus filhos com flores,

Os amantes realizam a interpenetração das almas

E seus corações caem no chão como punhados de cinza.

A tragédia vive entre a boca dos velhos e o olhar do recém-nascido

E o choro do que um dia será assassino é ouvido ao ventre da noite.

O poeta escreve poemas no solo

E a terra grávida recompensa com flores, frutos e nascentes.

Na hora da penumbra abre-se uma grande boca no firmamento

Dizendo sobre o juízo final.

Sob a luz da lua o poeta colhe os lírios entreabertos

E sai guarnecendo sepulturas de noivas ignoradas.

Um resplandecente globo ocular

Desce sobre a paisagem

E procura encontra a Amada e a Morte.

– Adalgisa Nery, in: Mundos Oscilantes, 1962.


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