Ternura

Antes que eu me transforme em água

E corra com os rios

Cantando para as florestas escuras

A canção sublime

Deixa-me contemplar tua face amada

Para que a canção se eternize.

Antes que os meus olhos se transformem

nos minúsculos vermes

Que movimentam o solo

Deixa-me receber a luz de tua boca

Para que eu me ilumine como as estrelas

No infinito da noite.

Antes que minhas mãos se mudem nas pedras das montanhas

Por onde caminharão os jovens pastores

Deixa-me afagar teus cabelos

Para que meu carinho se transforme na brisa

Que beija os grandes trigais.

Antes que minha forma sirva junto às raízes

Para amadurecer os frutos

Guarda-me na música de teu corpo

Para que o mistério do amor

Baixe sobre o universo

E banhe os espíritos perturbados.

– Adalgisa Nery, in: Mundos Oscilantes, 1962.


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