Affonso Romano de Sant`Anna

O homem e a letra

Depois de Beranger ter visto seus vizinhos virarem rinocerontesdepois de Clov contemplar a terra arrasada e comunicar-seem monossílabos com seus pais numa lixeiradepois de Gregory Sansa ter acordado numa manhãtransformado em desprezível inseto aos olhos da famíliae Kafka não ter entrado no castelo para ele aberto todaviadepois de Carlito a sós na ceia do ano • Read More »


Fascínio

Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.Não deveria, dizem.Me esforço. Aliás,já nem me esforço.Abertamente me ponho a admirá-las.Não estou traindo ninguém, advirto.Como pode o amor trair o amor?Amar o amor num outro amoré um ritual que, amante, me permito.


A IMPLOSÃO DA MENTIRA OU O EPISÓDIO DO RIOCENTRO

1 Mentiram-me. Mentiram-me onteme hoje mentem novamente. Mentemde corpo e alma, completamente.E mentem de maneira tão pungenteque acho que mentem sinceramente. Mentem, sobretudo, impune/mente.Não mentem tristes. Alegrementementem. Mentem tão nacional/menteque acham que mentindo história aforavão enganar a morte eterna/mente. Mentem. Mentem e calam. Mas suas frasesfalam. E desfilam de tal modo nuasque mesmo um cego • Read More »


Arte-final

Não basta um grande amorpara fazer poemas.E o amor dos artistas, não se enganem,não é mais beloque o amor da gente. O grande amante é aquele que silentese aplica a escrever com o corpoo que seu corpo deseja e sente. Uma coisa é a letra,e outra o ato, – quem toma uma por outraconfunde e • Read More »


Confluência

Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindosem distância.Ter-te amado convertendo em melo que era ânsia.Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:intumescente encontro de reentrâncias.Ter-te amadofez-me sentir: no corpo teu, o meu desejo– é ancorada errância.


Definição

O corpo é ondeé carne: o corpo é ondehá carnee o sangueé alarme. O corpo é ondeé chama: o corpo é ondehá chamae a brasainflama. O corpo é ondeé luta: o corpo é ondehá lutae o sangueexulta. O corpo é ondeé cal: o corpo é ondehá cale a doré sal. O corpoé ondee a vidaé • Read More »


Os desaparecidos

De repente, naqueles dias, começarama desaparecer pessoas, estranhamente.Desaparecia-se. Desaparecia-se muitonaqueles dias. Ia-se colher a flor ofertae se esvanecia.Eclipsava-se entre um endereço e outroou no táxi que se ia.Culpado ou não, sumia-seao regressar do escritório ou da orgia.Entre um trago de conhaquee um aceno de mão, o bebedor sumia.Evaporava o paiao encontro da filha que não • Read More »


Poemas para a amiga (fragmento 8)

Contemplo agora o leito que vazio se contempla. Contemplo agora o leito que vazio em mim se estende e se me aproximo existe qualquer coisa trescalando aroma em mim.  Onde o teu corpo, amante-amiga, onde o carinho que compungido em recebia e aquela forma que tranquila ainda ontem descobrias?  Agora eu te diria o quanto te agradeço o corpo teu se o me dás ou se o me tomas, e • Read More »


Carta aos

Carta aosMortosAmigos, nadamudouem essência.Os saláriosmal dão para os gastos,as guerras não terminarame há vírus novos e terríveis,embora o avanço da medicina.Volta e meia um vizinhotomba morto por questão de amor.Há filmes interessantes, é verdade,e como sempre, mulheres portentosasnos seduzem com suas bocas e pernas,mas em matéria de amornão inventamos nenhuma posição nova.Alguns cosmonautas ficam no • Read More »


O amor e o outro

Não amo melhornem piordo que ninguém. Do meu jeito amoOra esquisito, ora fogoso,às vezes aflitoou ensandecido de gozo.Já ameiaté com nojo. Coisas fabulosasacontecem-me no leito. Nem semprede mim dependem, confesso.O corpo do outroé que é sempre surpreendente.


EPITÁFIO PARA O SÉC XX

1. Aqui jaz um séculoonde houve duas ou três guerrasmundiais e milharesde outras pequenase igualmente bestiais. 2. Aqui jaz um séculoonde se acreditouque estar à esquerdaou à direitaeram questões centrais. 3. Aqui jaz um séculoque quase se esvaiuna nuvem atômica.Salvaram-no o acasoe os pacifistascom sua homeopáticaatitude— nux-vômica. 4. Aqui jaz o séculoque um muro dividiu.Um • Read More »


A coisa pública e a privada

Entre a coisa públicae a privadaachou-se a Repúblicaassentada. Uns queriam privarda coisa pública,outros queriam provarda privada,conquanto, é claro,que, na provação,a privada, publicamente,parecesse perfumada. Dessa luta intestinaentre a gula pública e a privadaa Repúblicaacabou desarranjadae já ninguém sabiaquando era a empresa públicaprivada públicaoupública privada. Assim ia a rês pública: avacalhadauma rês pública: charqueadauma rês pública, publicamentecorneada, • Read More »


Mistério

O mistério começa do joelho para cima.O mistério começa do umbigo para baixoe nunca termina.


Intervalo amoroso

O que fazer entre um orgasmo e outro,quando se abre um intervalosem teu corpo? Onde estou, quando não estouno teu gozo incluído?Sou todo exílio? Que imperfeita forma de ser é essaquando de ti sou apartado? Que neutra forma tocoquando não toco teus seios, coxase não recolho o sopro da vida de tua boca? O que • Read More »


Que país é este?

1 Uma coisa é um país,outra um ajuntamento. Uma coisa é um país,outra um regimento. Uma coisa é um país,outra o confinamento. Mas já soube datas, guerras, estátuasusei caderno “Avante”— e desfilei de tênis para o ditador.Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”e éramos maiores em tudo— discursando rios e pretensão. Uma coisa • Read More »


Limites do amor

Condenado estou a te amarnos meus limitesaté que exausta e mais querendoum amor total, livre das cercas,te despeça de mim, sofrida,na direção de outro amorque pensas ser total e total serános seus limites da vida. O amor não se medepela liberdade de se expor nas praçase bares, em empecilho.É claro que isto é bom e, • Read More »