Poemas para a amiga (fragmento 8)

Contemplo agora 
o leito que vazio 
se contempla. 
Contemplo agora 
o leito que vazio 
em mim se estende 
e se me aproximo 
existe qualquer coisa 
trescalando aroma em mim. 

Onde o teu corpo, amante-amiga, 
onde o carinho 
que compungido em recebia 
e aquela forma que tranquila 
ainda ontem descobrias? 

Agora eu te diria 
o quanto te agradeço o corpo teu 
se o me dás ou se o me tomas, 
e o recolhendo em mim, 
em mim me vais colhendo, 
como eu que tomo em ti 
o que de ti me vais doando. 

Eu muito te agradeço este teu corpo 
quando nos leitos o estendias e o me davas, 
às vezes, temerosa, 
e, ofegante, às vezes, 
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste) 
em que extasiado ao contemplá-lo 
em mim me conturbei 
– (o percebeste) me aguardaste 
e nos olhos te guardei. 

Eu muito te agradeço, amante-amiga, 
este teu corpo que com fúria eu possuía, 
corpo que eu mais amava 
quanto mais o via, 
pequeno e manso enigma 
que eu decifrei como podia. 

Agora eu te diria 
o que não soubeste 
e nunca o saberias: 
o que naquele instante eu te ofertava 
nunca a mim eu já doara 
e nunca o doaria. 

Nele eu fui pousar 
quando cansado e dúbio, 
dele eu fui tomar 
quando ofegante e rubro, 
dele e nele eu revivia 
e foi por ele que eu senti 
a solidão, e o amor 
que em mim havia. 

Teu corpo quando amava 
me excedia, 
e me excedendo 
com o amor foi me envolvendo, 
e nesse amor absorvente 
de tal forma absorvendo, 
que agora que o não tenho 
não sei como permaneço nesta ausência 
em que tuas formas se envolveram, 
tanto o amor 
e a forma do teu corpo 
no meu corpo se inscreveram.


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