Alberto de Oliveira

A cancela da estrada

Bate a cancela da estradaConstantemente. Cavaleiro, à disparada,Lá vai no cavalo ardente.Cavaleiro em descuidadaMarcha, lá vem indolente. Passa, ondeia levantadaA poeira, toldando o ambiente. Bate a cancela da estradaConstantemente. Bate, e exaspera-se e bradaOu chora contra o batente:(Ninguém lhe ouve na arrastada,Roufenha voz o que sente) — “Minha vida desgraçadaRepouso não me consente;Vivo a bater • Read More »


Aspiração

Ser palmeira! existir num píncaro azulado,Vendo as nuvens mais perto e as estrelas em bando;Dar ao sopro do mar o seio perfumado,Ora os leques abrindo, ora os leques fechando; Só de meu cimo, só de meu trono, os rumoresDo dia ouvir, nascendo o primeiro arrebol,E no azul dialogar com o espírito das flores,Que invisível ascende • Read More »


Confissão dos olhos

Na sala, muita vez, junto aos que estão contigo,Noto entrando que ao ver-me, entre surpresa e enleioFicas, como se acaso um sofrimento antigoEu te viesse acordar lá no íntimo do seio. Por que enleio e surpresa? Olham-te, e empalideces;Pões a vista no chão, fazes que desconhecesEstar ao pé de ti quem te perturba; acasoVais distraída; • Read More »


Fantástica

Erguido em negro mármor luzidio,Portas fechadas, num mistério enorme,Numa terra de reis, mudo e sombrio,Sono de lendas um palácio dorme. Torvo, imoto em seu leito, um rio o cinge,E, à luz dos plenilúnios argentados,Vê-se em bronze uma antiga e bronca esfinge,E lamentam-se arbustos encantados. Dentro, assombro e mudez! quedas figurasDe reis e de rainhas; penduradasPelo • Read More »


Os amores da estrela

Já sob o largo pálio a tenebrosaNoite as estrelas nítidas e belasPrendera ao seio, como mãe piedosa. De umas as brancas lúcidas capelas,De outras o manto e as clâmides de linhoViam-se à luz da lua. Estas e aquelas, Todas no lácteo sideral caminhoDormiam, como bando alvinitenteDe aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho. Vênus, • Read More »


Os amores da estrela

Já sob o largo pálio a tenebrosaNoite as estrelas nítidas e belasPrendera ao seio, como mãe piedosa. De umas as brancas lúcidas capelas,De outras o manto e as clâmides de linhoViam-se à luz da lua. Estas e aquelas, Todas no lácteo sideral caminhoDormiam, como bando alvinitenteDe aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho. Vênus, • Read More »


Terceiro canto

I Embala-me, balanço da mangueira,Embala-me, que enquanto vou contigo,Contigo venho, o meu pesar esqueço.Rompe a luz da manhã rosada e linda,Tudo desperta. E essa por quem padeço,Lânguida e preguiçosa,Entre brancos lençóis repousa ainda.Embala-me, pendente da mangueira,Na tensa corda, meu balanço amigo!Em claro a noite inteiraPassei, pensando nela. Ah! que formosaEstava ontem à tarde no mirante,Um • Read More »


Velha fazenda III

— “… Vi um por um, oh! provação tremenda!Nunca me há de esquecer aquele dia!Debandar os escravos da fazenda. A esta, em idos tempos de alegria,Chamara, porque as tinha, de “Esperança”,“Desengano” melhor lhe chamaria. Ah! dor nenhuma, como a da lembrançaDa ventura que foi, na desventuraFerir mais fundo o coração alcança! Tanta grandeza há pouco! • Read More »


Afrodite

I Móvel, festivo, trépido, arrolando,À clara voz, talvez da turba iriadaDe sereias de cauda prateada,Que vão com o vento os carmes concertando, O mar, — turquesa enorme, iluminada,Era, ao clamor das águas, murmurando,Como um bosque pagão de deuses, quandoRompeu no Oriente o pálio da alvorada. As estrelas clarearam repentinas,E logo as vagas são no verde • Read More »


Horas mortas

Breve momento após comprido diaDe incômodos, de penas, de cansaçoInda o corpo a sentir quebrado e lasso,Posso a ti me entregar, doce Poesia. Desta janela aberta, à luz tardiaDo luar em cheio a clarear no espaço,Vejo-te vir, ouço-te o leve passoNa transparência azul da noite fria. Chegas. O ósculo teu me vivificaMas é tão tarde! • Read More »


Taça de coral

Lícias, pastor — enquanto o sol recebe,Mugindo, o manso armento e ao largo espraia.Em sede abrasa, qual de amor por Febe,— Sede também, sede maior, desmaia. Mas aplacar-lhe vem piedosa NaiaA sede dágua: entre vinhedo e sebeCorre uma linfa, e ele no seu de faiaDe ao pé do Alfeu tarro escultado bebe. Bebe, e a • Read More »


Flor de caverna

Fica às vezes em nós um verso a que a venturaNão é dada jamais de ver a luz do dia;Fragmento de expressão de idéia fugidia,Do pélago interior bóia na vaga escura. Sós o ouvimos conosco; à meia voz murmura,Vindo-nos da consciência a flux, lá da sombriaProfundeza da mente, onde erra e se enfastia,Cantando, a distrair • Read More »


Beija-flores

Os beija-flores, em festa,Com o sol, com a luz, com os rumores,Saem da verde floresta,Como um punhado de flores. E abrindo as asas formosas,As asas aurifulgentes,Feitas de opalas ardentesCom coloridos de rosas, Os beija-flores, em bando,Boêmios enfeitiçados,Vão como beijos voandoPor sobre os virentes prados; Sobem às altas colinas,Descem aos vales formosos,E espraiam-se após ruidososPela extensão • Read More »


A vingança da porta

Era um hábito antigo que ele tinha:Entrar dando com a porta nos batentes.— Que te fez essa porta? a mulher vinhaE interrogava. Ele cerrando os dentes: — Nada! traze o jantar! — Mas à noitinhaCalmava-se; feliz, os inocentesOlhos revê da filha, a cabecinhaLhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes. Urna vez, ao tornar • Read More »


Vaso chinês

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,Casualmente, uma vez, de um perfumadoContador sobre o mármor luzidio,Entre um leque e o começo de um bordado. Fino artista chinês, enamorado,Nele pusera o coração doentioEm rubras flores de um sutil lavrado,Na tinta ardente, de um calor sombrio. Mas, talvez por contraste à desventura,Quem o sabe?… de um velho mandarimTambém lá • Read More »


Vaso grego

Esta de áureos relevos, trabalhadaDe divas mãos, brilhante copa, um dia,Já de aos deuses servir como cansada,Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. Era o poeta de Teos que o suspendiaEntão, e, ora repleta ora esvasada,A taça amiga aos dedos seus tinia,Toda de roxas pétalas colmada. Depois… Mas, o lavor da taça admira,Toca-a, e • Read More »