Álvares de Azevedo

Lira dos vinte anos – 2a parte

Meu pobre coração que estremecias,Suspira a desmaiar no peito meu:Para enchê-lo de amor, tu bem sabiasBastava um beijo teu! Como o vale nas brisas se acalenta,O triste coração no amor dormia;Na saudade, na lua macilentaSequioso ar bebia! Se nos sonhos da noite se embalavaSem um gemido, sem um ai sequer,E que o leite da vida • Read More »


Lira dos vinte anos

Oh! não tremas! que este olhar, esteabraço te digam quanto é inefável – o deabandono sem receio, os inebriamentos deuma voluptuosidade que deve ser eterna.GOETHE, Fausto Sim! coroemos as noitesCom as rosas do himeneu…Entre flores de laranjaSerás minha e serei teu! Sim! quero em leito de floresTuas mãos dentro das minhas…Mas os círios dos amoresSejam • Read More »


Malva maça

De teus seios tão mimososQuem gozasse o talismã!Que ali deitasse a fronteCheia de amoroso afã!E quem nele respirasseA tua malva-maçã! Dá-me essa folha cheirosaQue treme no seio teu!Dá-me a folha… hei de beijá-laSedenta no lábio meu!Não vês que o calor do seioTua malva emurcheceu… (…) Descansar nesses teus braçosFora angélica ventura:Fora morrer — nos teus • Read More »


Meu desejo

Meu desejo? era ser a luva brancaQue essa tua gentil mãozinha aperta:A camélia que murcha no teu seio,O anjo que por te ver do céu deserta…. Meu desejo? era ser o sapatinhoQue teu mimoso pé no baile encerra….A esperança que sonhas no futuro,As saudades que tens aqui na terra…. Meu desejo? era ser o cortinadoQue • Read More »


Meu sonho

EU Cavaleiro das armas escuras,Onde vais pelas trevas impurasCom a espada sanguenta na mão?Porque brilham teus olhos ardentesE gemidos nos lábios frementesVertem fogo do teu coração? Cavaleiro, quem és? o remorso?Do corcel te debruças no dorso….E galopas do vale através…Oh! da estrada acordando as poeirasNão escutas gritar as caveirasE morder-te o fantasma nos pés? Onde • Read More »


Minha desgraça

Minha desgraça, não, não é ser poeta,Nem na terra de amor não ter um eco,E meu anjo de Deus, o meu planetaTratar-me como trata-se um boneco…. Não é andar de cotovelos rotos,Ter duro como pedra o travesseiro….Eu sei…. O mundo é um lodaçal perdidoCujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro…. Minha desgraça, ó cândida • Read More »


Morena

Ó Teresa, um outro beijo! e abandona-mea meus sonhos e a meus suaves delírios.JACOPO ORTIS É loucura, meu anjo, é loucuraOs amores por anjos… bem sei!Foram sonhos, foi louca ternuraEsse amor que a teus pés derramei! Quando a fronte requeima e delira,Quando o lábio desbota de amor,Quando as cordas rebentam na liraQue palpita no seio • Read More »


Namoro a cavalo

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraçaQue rege minha vida malfadada,Pôs lá no fim da rua do CateteA minha Dulcinéia namorada. Alugo (três mil-réis) por uma tardeUm cavalo de trote (que esparrela!)Só para erguer meus olhos suspirandoÀ minha namorada na janela… Todo o meu ordenado vai-se em floresE em lindas folhas de papel bordado,Onde eu • Read More »


Oh! Páginas da vida que eu amava

Oh! Páginas da vida que eu amava,Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado! …Ardei, lembranças doces do passado!Quero rir-me de tudo que eu amava! E que doudo que eu fui! como eu pensavaEm mãe, amor de irmã! em sossegadoAdormecer na vida acalentadoPelos lábios que eu tímido beijava! Embora — é meu destino. Em treva densaDentro do peito • Read More »


Pálida à luz

Pálida à luz da lâmpada sombria,Sobre o leito de flores reclinada,Como a lua por noite embalsamada,Entre as nuvens do amor ela dormia! Era a virgem do mar, na escuma friaPela maré das águas embalada!Era um anjo entre nuvens dalvoradaQue em sonhos se banhava e se esquecia! Era mais bela! o seio palpitandoNegros olhos as pálpebras • Read More »


Por mim?

Teus negros olhos uma vez fitandoSenti que luz mais branda os acendia,Pálida de langor, eu vi, te olhando,Mulher do meu amor, meu serafim,Esse amor que em teus olhos refletia…Talvez! – era por mim? Pendeste, suspirando, a face pura,Morreu nos lábios teus um ai perdido…Tão ébrio de paixão e de ventura!Mulher de meu amor, meu serafim,Por • Read More »


Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menosFechar meus olhos minha triste irmã;Minha mãe de saudades morreriaSe eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro!Que aurora de porvir e que manhã!Eu perdera chorando essas coroasSe eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que doce n’alvaAcorda a natureza mais louçã!Não me batera tanto amor no • Read More »


Por que mentias?

Por que mentias leviana e bela?Se minha face pálida sentiasQueimada pela febre, e minha vidaTu vias desmaiar, por que mentias? Acordei da ilusão, a sós morrendoSinto na mocidade as agonias.Por tua causa desespero e morro…Leviana sem dó, por que mentias? Sabe Deus se te amei! Sabem as noitesEssa dor que alentei, que tu nutrias!Sabe esse • Read More »


Seio de virgem

Quand on te voit, il vient à maintsUne envie dedans tes mainsDe te tâter, de te tenir…CLÉMENT MAROT O que sonho noite e dia,E à alma traz-me poesiaE me torna a vida bela…O que num brando roçarFaz meu peito se agitar,É o teu seio, donzela! Oh! quem pintara o cetimDesses limões de marfim,Os leves cerúleos • Read More »


Sem título

ITenho um seio que deliraComo as tuas harmonias!Que treme quando suspira,Que geme como gemias! IITenho músicas ardentes,Ais do meu amor insano,Que palpitam mais dormentesDo que os sons do teu piano! IIITenho cordas argentinasQue a noite faz acordar,Como as nuvens peregrinasDas gaivotas do alto mar! IVComo a teus dedos lindinhosO teu piano gemer,Vibra-me o seio aos • Read More »


Vagabundo

Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,Fumando meu cigarro vaporoso;Nas noites de verão namoro estrelas;Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso! Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;Mas tenho na viola uma riqueza:Canto à lua de noite serenatas,E quem vive de amor não tem pobreza. Não invejo ninguém, nem ouço a raivaNas cavernas do • Read More »


Vi o poeta moribundo

Poetas! amanhã ao meu cadáverMinha tripa cortai mais sonorosa!…Façam dela uma corda, e cantem nelaOs amores da vida esperançosa! Cantem esse verão que me alentava…O aroma dos currais, o bezerrinho,As aves que na sombra suspiravam,E os sapos que cantavam no caminho! Coração, porque tremes? Se esta liraNas minhas mãos sem força desafina;Enquanto ao cemitério não • Read More »


Lenço dela

Quando, a primeira vez, da minha terraDeixei as noites de amoroso encanto,A minha doce amante suspirandoVolveu-me os olhos úmidos de pranto. Um romance cantou de despedida,Mas a saudade amortecia o canto!Lágrimas enxugou nos olhos belos…E deu-me o lenço que molhava o pranto. Quantos anos, contudo, já passaram!Não olvido porém amor tão santo!Guardo ainda num cofre • Read More »


Lembrança de morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibraQue o espírito enlaça à dor vivente,Não derramem por mim nem uma lágrimaEm pálpebra demente. E nem desfolhem na matéria impuraA flor do vale que adormece ao vento:Não quero que uma nota de alegriaSe cale por meu triste passamento. Eu deixo a vida como deixa o tédioDo deserto, o • Read More »


Lágrimas da vida

Ao pé das aras no clarão dos círiosEu te devera consagrar meus dias;Perdão, meu Deus! perdãoSe neguei meu Senhor nos meus delíriosE um canto de enganosas melodiasLevou meu coração! Só tu, só tu podias o meu peitoFartar de imenso amor e luz infindaE uma Saudade calma;Ao sol de tua fé doirar meu leitoE de fulgores • Read More »


Lágrima de sangue

Ao pé das aras no clarão dos círiosEu te devera consagrar meus dias;Perdão, meu Deus! perdãoSe neguei meu Senhor nos meus delíriosE um canto de enganosas melodiasLevou meu coração! Só tu, só tu podias o meu peitoFartar de imenso amor e luz infindaE uma Saudade calma;Ao sol de tua fé doirar meu leitoE de fulgores • Read More »


Idéias íntimas

FRAGMENTO.La chaise ou je m’assieds, la natte ou je me couche,La table ou je t’écris, ……………………….…………………………………………….Mes gros souliers ferrés, mon bâton, mon chapeau,Mes livres pêle-mêle entassés sur leur planche……………………………………………..De cet espace étroit sont tout l’ameublement.LAMARTINE. Jocelyn. I Ossian o bardo é triste como a sombraQue seus cantos povoa. O LamartineE’ monótono e belo como a • Read More »


Fragmento de um canto em cordas de bronze

Deixai que o pranto esse palor me queime,Deixai que as fibras que estalaram doresDesse maldito coração me vibremA canção dos meus últimos amores! Da delirante embriaguez de bardoSonhos em que afoguei o ardor da vida,Ardente orvalhos de febris pranteios,Que lucro à alma descrida? Deixai que chore pois. — Nem loucas venhamConsolações a importunar-me as dores:Quero • Read More »


Fantasia

Quanti dolci pensier, quanto disio!DANTE C’est alors que ma voixMurmure un nom tout bas… c’est alors que je voisM’apparaître à demi, jeune, voluptueuse,Sur ma couche penchée une femme amoureuse!………………………..Oh! toi que j’ai rêvée,Femme à mes longs baisers si souvent enlevée,Ne viendras-tu jamais?………………………..CH. DOVALLE À noite sonhei contigo…E o sonho cruel maldigoQue me deu tanta ventura.Uma • Read More »


Eutanásia

Ergue-te daí, velho! ergue essa fronte onde o passado afundou suas rugas como o vendaval no Oceano, onde a morte assombrou sua palidez como na face do cadáver, onde o simoun do tempo ressicou os anéis louros do mancebo nas cãs alvacentas de ancião?Por que tão lívido, ó monge taciturno, debruças a cabeça macilenta no • Read More »


Despedida

Se entrares, ó meu anjo, alguma vezNa solidão onde eu sonhava em ti,Ah! vota uma saudade aos belos diasQue a teus joelhos pálido vivi! Adeus, minh’alma, adeus! eu vou chorando…Sinto o peito doer na despedida…Sem ti o mundo é um deserto escuroE tu és minha vida… Só por teus olhos eu viver podiaE por teu • Read More »


Anjos do mar

As ondas são anjos que dormem no mar,Que tremem, palpitam, banhados de luz…São anjos que dormem, a rir e sonharE em leito d’escuma revolvem-se nus! E quando, de noite, vem pálida a luaSeus raios incertos tremer, pratear…E a trança luzente da nuvem flutua…As ondas são anjos que dormem no mar! Que dormem, que sonham… e • Read More »


Anjinho

And from her fresh and unpolluted fleshMay violets spring!HAMLET Não chorem! que não morreu!Era um anjinho do céuQue um outro anjinho chamou!Era uma luz peregrina,Era uma estrela divinaQue ao firmamento voou! Pobre criança! dormia:A beleza reluziaNo carmim da face dela!Tinha uns olhos que choravam,Tinha uns risos que encantavam!Ai meu Deus! era tão bela! Um anjo • Read More »


Amor

Amemos! Quero de amorViver no teu coração!Sofrer e amar essa dorQue desmaia de paixão!Na tu’alma, em teus encantosE na tua palidezE nos teus ardentes prantosSuspirar de languidez! Quero em teus lábio beberOs teus amores do céu,Quero em teu seio morrerNo enlevo do seio teu!Quero viver d’esperança,Quero tremer e sentir!Na tua cheirosa trançaQuero sonhar e dormir! • Read More »


Adeus, meus sonhos!

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!Não levo da existência uma saudade!E tanta vida que meu peito enchiaMorreu na minha triste mocidade! Misérrimo! Votei meus pobres diasÀ sina doida de um amor sem fruto,E minh’alma na treva agora dormeComo um olhar que a morte envolve em luto. Que me resta, meu Deus? Morra comigoA estrela • Read More »


A largatixa

A lagartixa ao sol ardente vive,E fazendo verão o corpo espicha:O clarão dos teus olhos me dá vida,Tu és o sol e eu sol a lagartixa. Amo-te como o vinho e como o sono,Tu és meu copo e amoroso leito…Mas teu néctar de amor jamais se esgota,Travesseiro não há como teu peito. Posso agora viver: • Read More »