Cecília Meireles

Timidez

Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve… – mas só esse eu não farei. Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes… – palavra que não direi. Para que tu me adivinhes, entre • Read More »


Tanta tinta

Ah! Menina tonta,toda suja de tintamal o sol desponta! (Sentou-se na ponte,muito desatenta…E agora se espanta:Quem é que a ponte pintacom tanta tinta?…) A ponte apontae se desaponta.A tontinha tentalimpar a tinta,ponto por pontoe pinta por pinta…Ah! A menina tonta!Não viu a tinta da ponte!


Sonhos da menina

A flor com que a menina sonhaestá no sonho?ou na fronha? Sonhorisonho: O vento sozinhono seu carrinho. De que tamanhoseria o rebanho? A vizinhaapanhaa sombrinhade teia de aranha . . . Na lua há um ninhode passarinho. A lua com que a menina sonhaé o linho do sonhoou a lua da fronha?


Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,Assim calmo, assim triste, assim magro,Nem estes olhos tão vazios,Nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força,Tão paradas e frias e mortas;Eu não tinha este coraçãoQue nem se mostra. Eu não dei por esta mudança,Tão simples, tão certa, tão fácil:— Em que espelho ficou perdidaa minha • Read More »


Reinvenção

A vida só é possívelreinventada. Anda o sol pelas campinase passeia a mão douradapelas águas, pelas folhas…Ah! tudo bolhasque vem de fundas piscinasde ilusionismo… — mais nada. Mas a vida, a vida, a vida,a vida só é possívelreinventada. Vem a lua, vem, retiraas algemas dos meus braços.Projeto-me por espaçoscheios da tua Figura.Tudo mentira! Mentirada lua, • Read More »


Pregão do vendedor de lima

Lima rimapela ramalima rimapelo aroma. O rumo é que leva o remo.O remo é que leva a rima. O ramo é que leva o aromaporém o aroma é da lima. É da lima o aromaa aromar? É da lima-limalima da limeirado auro da limao aroma de ourodo ar!


Para ir à lua

Enquanto não têm foguetespara ir à Luaos meninos deslizam de patinetepelas calçadas da rua. Vão cegos de velocidade:mesmo que quebrem o nariz,que grande felicidade!Ser veloz é ser feliz. Ah! se pudessem ser anjosde longas asas!Mas são apenas marmanjos.


Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel,ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão,quem fica no chão não sobe nos ares. É uma • Read More »


O vestido de Laura

O vestido de Lauraé de três babados,todos bordados. O primeiro, todinho,todinho de floresde muitas cores. No segundo, apenasborboletas voando,num fino bando. O terceiro, estrelas,estrelas de renda– talvez de lenda… O vestido de Lauravamos ver agora,sem mais demora! Que as estrelas passam,borboletas, floresperdem suas cores.Se não formos depressa,acabou-se o vestidotodo bordado e florido!


O último andar

No último andar é mais bonito:do último andar se vê o mar.É lá que eu quero morar. O último andar é muito longe:custa-se muito a chegar.Mas é lá que eu quero morar. Todo o céu fica a noite inteirasobre o último andar.É lá que eu quero morar. Quando faz lua, no terraçofica todo o luar.É • Read More »


O mosquito escreve

O mosquito pernilongotrança as pernas, faz um M,depois, treme, treme, treme,faz um O bastante oblongo,faz um S.O mosquito sobe e desce.Com artes que ninguém vê,faz um Q,faz um U, e faz um I.Este mosquitoesquisitocruza as patas, faz um T. E aí,se arredonda e faz outro O,mais bonito. Oh!Já não é analfabeto,esse inseto,pois sabe escrever seu • Read More »


O menino azul

O menino quer um burrinhopara passear.Um burrinho manso,que não corra nem pule,mas que saiba conversar. O menino quer um burrinhoque saiba dizero nome dos rios,das montanhas, das flores,— de tudo o que aparecer. O menino quer um burrinhoque saiba inventar histórias bonitascom pessoas e bichose com barquinhos no mar. E os dois sairão pelo mundoque • Read More »


O lagarto medroso

O lagarto parece uma folhaverde e amarela.E reside entre as folhas, o tanquee a escada de pedra.De repente sai da folhagem,depressa, depressaolha o sol, mira as nuvens e correpor cima da pedra.Bebe o sol, bebe o dia parado,sua forma tão quieta,não se sabe se é bicho, se é folhacaída na pedra.Quando alguém se aproxima, — • Read More »


O eco

O menino pergunta ao ecoOnde é que ele se esconde.Mas o eco só responde: Onde? Onde? O menino também lhe pede:Eco, vem passear comigo! Mas não sabe se o eco é amigoou inimigo. Pois só lhe ouve dizer: Migo!


O cavalinho branco

À tarde, o cavalinho brancoestá muito cansado: mas há um pedacinho do campoonde é sempre feriado. O cavalo sacode a crinaloura e comprida e nas verdes ervas atirasua branca vida. Seu relincho estremece as raízese ele ensina aos ventos a alegria de sentir livresseus movimentos. Trabalhou todo o dia, tanto!desde a madrugada! Descansa entre as • Read More »


Na chácara do Chico Bolacha

Na chácara do Chico Bolachao que se procuranunca se acha! Quando chove muito,O Chico brinca de barco,porque a chácra vira charco. Quando não chove nada,Chico trabalha com a enxadae logo se machucae fica de mão inchada. Por isso, com o Chico Bolacha,o que se procuranunca se acha. Dizem que a chácara do Chicosó tem mesmo • Read More »


Motivo

Eu canto porque o instante existee a minha vida está completa.Não sou alegre nem sou triste:sou poeta. Irmão das coisas fugidias,não sinto gozo nem tormento.Atravesso noites e diasno vento. Se desmorono ou se edifico,se permaneço ou me desfaço,— não sei, não sei. Não sei se ficoou passo. Sei que canto. E a canção é tudo.Tem • Read More »


Leilão de jardim

Quem me compra um jardim com flores?Borboletas de muitas cores,lavadeiras e passarinhos,ovos verdes e azuis nos ninhos? Quem me compra este caracol?Quem me compra um raio de sol?Um lagarto entre o muro e a hera,uma estátua da Primavera? Quem me compra este formigueiro?E este sapo, que é jardineiro?E a cigarra e a sua canção?E o • Read More »


Interlúdio

As palavras estão muito ditase o mundo muito pensado.Fico ao teu lado. Não me digas que há futuronem passado.Deixa o presente — claro murosem coisas escritas. Deixa o presente. Não fales,Não me expliques o presente,pois é tudo demasiado. Em águas de eternamente,o cometa dos meus malesafunda, desarvorado. Fico ao teu lado.


Encomenda

Desejo uma fotografiacomo esta — o senhor vê? — como esta:em que para sempre me riacomo um vestido de eterna festa. Como tenho a testa sombria,derrame luz na minha testa.Deixe esta ruga, que me emprestaum certo ar de sabedoria. Não meta fundos de florestanem de arbitrária fantasia…Não… Neste espaço que ainda resta,ponha uma cadeira vazia.


Elegia

Neste mês, as cigarras cantame os trovões caminham por cima da terra,agarrados ao sol.Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,e depois a noite é mais clara,e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão. Mas tudo é inútil,porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,e a tua narina • Read More »


Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquiloque está onde as outras coisas nunca estão,deixo o mar bravo e o céu tranquilo:quero solidão. Meu caminho é sem marcos nem paisagens.E como o conheces? – me perguntarão.– Por não ter palavras, por não ter imagens.Nenhum inimigo e nenhum irmão. Que procuras? – Tudo. Que desejas? • Read More »


Colar de Carolina

Com seu colar de coral,Carolinacorre por entre as colunasda colina. O colar de Carolinacolore o colo de cal,torna corada a menina. E o sol, vendo aquela cordo colar de Carolina,põe coroas de coralnas colunas da colina.


Canção da flor de pimenta

A flor da pimenta é uma pequena estrela,fina e branca,a flor da pimenta. Frutinhas de fogo vêm depois da festadas estrelas.Frutinhas de fogo. Uns coraçõezinhos roxas, áureos, rubras,muito ardentes.Uns coraçõezinhos. E as pequenas flores tão sem firmamentojazem longe.As pequenas flores… Mudaram-se em farpas, sementes de fogotão pungentes!Mudaram-se em farpas. Novas se abrirão,leves,brancas,puras,deste fogo,muitas estrelinhas…


As meninas

Arabelaabria a janela. Carolinaerguia a cortina. E Mariaolhava e sorria:“Bom dia!” Arabelafoi sempre a mais bela. Carolina,a mais sábia menina. E Mariaapenas sorria:“Bom dia!” Pensaremos em cada meninaque vivia naquela janela; uma que se chamava Arabela,uma que se chamou Carolina. Mas a profunda saudadeé Maria, Maria, Maria, que dizia com voz de amizade:“Bom dia!”


A língua de nhem

Havia uma velhinhaque andava aborrecidapois dava a sua vidapara falar com alguém. E estava sempre em casaa boa velhinharesmungando sozinha:nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem… O gato que dormiano canto da cozinhaescutando a velhinha,principiou também a miar nessa línguae se ela resmungava,o gatinho a acompanhava:nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem… Depois veio o cachorroda casa da vizinha,pato, cabra e galinhade cá, de lá, de além, • Read More »


A bailarina

Esta meninatão pequeninaquer ser bailarina.Não conhece nem dó nem rémas sabe ficar na ponta do pé. Não conhece nem mi nem fáMas inclina o corpo para cá e para lá Não conhece nem lá nem si,mas fecha os olhos e sorri. Roda, roda, roda, com os bracinhos no are não fica tonta nem sai do • Read More »


A avó do menino

A avóvive só.Na casa da avóo galo lirófaz “cocorocó!”A avó bate pão-de-lóE anda um vento-t-o-tóNa cortina de filó.A avóvive só.Mas se o neto meninóMas se o neto RicardóMas se o neto travessóVai à casa da avó,Os dois jogam dominó.