Morrer

Pois morrer é apenas isto:
cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto; 
é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito; 
é despedir-se em surdina, 
sem epitáfio melífluo 
ou testamento sovina; 
é talvez como despir 
o que em vida não vestia 
e agora é inútil vestir; 
é nada deixar aqui: 
memória, pecúlio, estirpe, 
sequer um traço de si; 
é findar-se como um círio 
em cuja luz tudo expira 
sem êxtase nem martírio.
– Ivan Junqueira, em “O grifo”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.


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