No fundo do leito

No leito fundo em que descansas,
em meio às larvas e aos livores,

longe do mundo e dos terrores
que te infundia o aço das lanças;

longe dos reis e dos senhores
que te esqueceram nas andanças,
longe das taças e das danças,
e dos feéricos rumores;

longe das cálidas crianças
que ateavam fogo aos corredores
e se expandiam, quais vapores,
entre as alfaias e as faianças

de tua herdade, cujas flores
eram fatídicas e mansas,
mas que se abriam, fluidas tranças,
quando as tangiam teus pastores;

longe do fel, do horror, das dores,
é que recolho essas lembranças
e as deito agora, já sem cores,
no leito fundo em que descansas.
– Ivan Junqueira, em “A sagração dos ossos”.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *