Ritual

Fecho as janelas desta casa
(seus corredores, seus fantasmas
sua aérea arquitetura de pássaro)
fecho a insônia que inundava
meu quarto debruçado sobre o nada
fecho as cortinas onde a larva
do tempo tece agora sua praga
fecho a clara algazarra plácida
das vozes sangüíneas da alvorada
fecho o trecho taciturno da tocata
a chuva percutindo as teclas do telhado
as sombras navegando pelo pátio
                                               e o bambuzal
Fecho as torneiras da memória
Fecho também a tumultuosa torrente de vida 
que poderia ter rompido o cerco das paredes 
e feito explodir a argamassa de calcário e solidão
Fecho ainda as lentas pálpebras da amada 
o mofo acumulado entre seus lábios 
o limo que vestiu sua carne desolada
Fecho tudo e depois me fecho
Estou cansado
                 estou triste
                                     estou só
– Ivan Junqueira, em “Os mortos”. Rio de Janeiro: Atelier de Arte, 1964.


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