Jacinta Passos

Mensagem às crianças do mundo

Crianças da Ásia, a velha escrava lendáriaque embalou o berço dos primeiros homens do mundo,crianças da Ásia, a velha escrava lendáriade cujo seio escorre a riqueza como um leite preciosoque os outros homens do mundo arrancam da boca dos seus filhos.Crianças chinesas, pequeninos heróis de olhos oblíquos,na célula inicial do vosso serficou impresso o heroísmo • Read More »


1935

Tenso como rede de nervospressentindo ah! novembrode esperança e precipício.Fruto peco.Novembro de sangue e de heróis.Grito de assombro morto na garganta,soluço seco dor sem nome. Ferido.De morte ferido. Como um animal ferido. Lutade entranhas e dentes. Natal.Sangue. Praia Vermelha.Sangue.Sangue. É quase um fioescorrendosangrentotenazpor dentro dos cárceres,nas ilhase nos corações que a esperança guardaram.– Jacinta Passos, • Read More »


Sangue Negro

para Jorge Amado Terras curvas do Recôncavoonde adormece o oceano,no teu subsolo circulasangue negro cor da noite,da cor do preto africano,preto cujo sangue escravoregou o solo baiano.Terras curvas do Recôncavoonde adormece o oceano,de tuas veias abertasescorreo petróleo baiano,sangue negro do Brasil. Operário mestiço!tuas ásperas mãos – e tu não sabes disso –tuas mãos quando movem as • Read More »


O rio

Tantos rios como eu abriram leito de pedrase pranto. Um dia perguntávamos:– Dizei-me, curva, onde vou? casa trono rocha soisaqueles que ficam, minha lei é não parar. Sigofio de água, água humilde sou, para onde? Ó curva,falai. Água de revolta, espuma e ódio nos porosna garganta no útero, pranto de mulher, águade fel antigo, quem • Read More »


O mar

Múrmuro e lento,o mar ao longe se espraia.Geme e brame, ruge e clamao seu tormento,e, soluçando, vem morrer na praia.O mar imenso…Quando eu escuto o seu rumor soturno,fico a cismar.Pensono destino do mar– ser eterno cantor –cantar a sua dor de eterno insatisfeito,cantar o seu sonho infinito desfeito,cantar o mesmo canto que embaloua infância do • Read More »


Navio de imigrantes

a Lasar Segall Gestos paradosno limiardo céu e mar.Corpos largadosdesamparados,límpido tempode primaveramora no fundode vossa espera.Navio sombrio, que levas no bojo?– descobre o teu véu:navegas em busca da terra ou do céu?Corpos humanossuportam corpos,seus desenganos.Corpo, cansaço,longa viagem,busca um regaço,terra ou miragemArca ou navio,nau ou galera,vens doutra era,séculos a fio. Qual o teu rumo?Levas o sumoda dor • Read More »


Meu sonho

O meu sonhomais risonhoé suave e pequeninoresumindo entretanto o meu destino.É de cor azul escuracomo o mar que longe choraÉ cor de infinito e de ânsiacor do céu, cor do mar, cor de distância.Tem a leve suavidadeda saudade,e a cantante doçurade um regato que murmura.Macio e encantadoré carícia de pluma e perfume de flor.O meu • Read More »


Manhã de sol

Dia azul de Maio. Esplendeum sol de ouro no céu que além se estende. Prolongam-se vibrações do arrebolna clara luz desta manhã de sol.O céu ardente,dum azul luminoso e transparente,tem doçura infinita…Um rumor de asas pelo azul palpita,palpita pelo ar.É carícia sonora, a música do mar.O verde risonhodas árvores é lindo como um sonho.A brisa • Read More »


Incerteza

Em meu olhar se espelhaa sombra interior de incerteza angustiante.E em minha alma floresce, como rosa vermelhadum vermelho gritante,como o clangor clarim,esta angústia que vive a vibrar dentro em mim.É a minha vida um longo e ansioso esperar,num amor que há de vir.Amor – prazer que é dor e sofrer que é gozar –Amor que • Read More »


Eu serei poesia

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.Quando eu não for mais um indivíduo,eu serei poesia.Quando nada mais existir entre mim e todos os seres,os seres mais humildes do universo,eu serei poesia.Meu nome não importa.Eu não serei eu, eu serei nós,serei poesia permanente,poesia sem fronteiras.– Jacinta Passos (1942), em parte I “Momentos • Read More »


Diálogo na sombra

– Que dissestes, meu bem?– Esse gosto.Donde será que ele vem?Corpo mortal.Águas marinhas.Virá da morte ou do sal?Esses dois que moram no fundo e no fim.– De quem falas, amor, do mar ou de mim?– Jacinta Passos (1944), em “Canção da partida”. São Paulo: Edições Gaveta, 1945.


Crepúsculo

Vai lentamente agonizando o dia…O poente onde, há pouco, o sol ardia,se tingiu de cor de ouro, luminosa.Tons desmaiados de lilás e rosalistram o puro azul do firmamento– um poema de luz, neste momento.A sombra de mansinho vem caindoe o contorno das coisas, diluindo.Pesa um grande silêncio, enorme e mudo.Desce suavemente sobre tudo,uma bênção dulcíssima • Read More »


Cântico de exílio

Estou cansada, Senhor.Minha alma insaciável,a minha alma faminta de beleza,ávida de perfeição,é perseguida pelo teu amor.Puseste dentro dela esta ânsia infinitacujo ardor queima,como a sede que em pleno deserto escaldantepersegue o viajor.Esta angústia, que cresce e que vibra e palpita,nasceu dentro em mimno mesmo divino instanteem que, morrendo a última ilusão,só me restava afinaluma fria • Read More »


Cantigas das mães

(para minha mãe)Fruto quando amadurececai das árvores no chão,e filho depois que crescenão é mais da gente, não.Eu tive cinco filhinhose hoje sozinha estou.Não foi a morte, não foi,oi!foi a vida que roubou.Tão lindos, tão pequeninos,como cresceram depressa,antes ficassem meninosos filhos do sangue meu,que meu ventre concebeu,que meu leite alimentou.Não foi a morte, não foi,oi!foi • Read More »


Canção do amor livre

Se me quiseres amarnão despe somente a roupa.Eu digo: também a crostafeita de escamas de pedrae limo dentro de ti,pelo sangue recebidatecidade medo e ganância má.Ar de pântano diárionos pulmões.Raiz de gestos legaise limbo do homem sónuma ilha.Eu digo: também a crostaessa que a classe gerouvil, tirânica, escamenta.Se me quiseres amar.Agora teu corpo é fruto.Peixe • Read More »


Canção da liberdade

Eu só tenho a vida minha.Eu sou pobre pobrezinha,tão pobre como nasci,não tenho nada do mundo,tudo que tive, perdi.Que vontade de cantar:a vida vale por si.   Nada eu tenho neste mundo,   sozinha!   Eu só tenho a vida minha.Eu sou planta sem raizque o vento arrancou do chão,já não quero o que já quis,livre, livre o • Read More »


Canção da alegria

Urupembaurupembamandioca aipim!peneirarpeneirouque restou no fim?Peneira massa peneira,peneira peneiradinha,(Ai! vida tão peneirada)peneira nossa farinha.Olhe o romboolhe o romboolhe o rombo arrombou!olhe o ciscoolhe o riscourupemba furou!Eh! sai espantalhoda ponta do galho!Escorra! Escorra!Tirai essa borra!Urupembaurupembamandioca aipim!peneirarpeneirouque restou no fim?Farinha fininhapeneiradinha!Ai! vida, que vidanuinha! nuinha!– Jacinta Passos em “Canção da partida”. São Paulo: Edições Gaveta, 1945.


Canção atual

Plantei meus pés foi aqui amor, neste chão.Não quero a rosa do tempo abertanem o cavalo de nuvemnão quero as tranças de Julieta.Este chão já comeu coisa tanta que eu mesma nem sei,bichopedralixolumemuita cabeça de rei.Muita cidade madura e muito livro da lei.Quanto deus caiu do céu tanto riso neste chão,fala de servo caladopisadosoluço de • Read More »


A missão do poeta

No instante inicial da criação,quando o mundo acabava de sairdas mãos de Deus,e quando as coisas todas palpitavam,quentes ainda do seu sopro criador,escutou-se o primeiro cântico, na terra,glorificando o Senhor.Cantao poeta porque seu destino é cantar.Cantar o mesmo canto que irrompeudos lábios do primeiro homem criado,ante a maravilhosa visão da beleza.da esplêndida harmonia universal.Cantar ao • Read More »


Poesia perdida

Ó! a poesia deste momento que passa,a grande poesia vivida neste instantepor todos os seres da terra,que palpita nas coisas mais simplescomo um rastro luminoso da Belezae, sem uma voz humana para eternizá-la,se perde para sempre, inutilmente…Por que existo, Senhor, quando não posso cantar?– Jacinta Passos (1933?), em  parte I “Momentos de Poesia”, do livro • Read More »