A missão do poeta

No instante inicial da criação,
quando o mundo acabava de sair
das mãos de Deus,
e quando as coisas todas palpitavam,
quentes ainda do seu sopro criador,
escutou-se o primeiro cântico, na terra,
glorificando o Senhor.
Canta
o poeta porque seu destino é cantar.
Cantar o mesmo canto que irrompeu
dos lábios do primeiro homem criado,
ante a maravilhosa visão da beleza.
da esplêndida harmonia universal.
Cantar ao Senhor,
bendizendo a divina perfeição,
bendizendo o amor infinito
que transbordou, criando as criaturas.
Canta o poeta,
a glória e o sofrimento do universo.
Canta por todas as criaturas,
que não sabem cantar.
Aprende
a realidade íntima das coisas,
o mistério que liga os seres todos,
numa unidade essencial,
e canta
as belezas dispersas pelo mundo,
fragmentos da beleza total.
Sente
a harmonia quebrada do universo,
a desordem estabelecida
pelo egoísmo do homem,
e canta
a angústia da alma humana que procura
o paraíso perdido.
Sofre
a dureza de sua própria resistência
e canta
o fundo e permanente sofrimento
para atingir o estado interior,
quando, de dentro d’alma irrompe, límpido
puro, o canto único,
que eleva as coisas todas para o alto
glorificando o Senhor.
Canta
o poeta porque seu destino é cantar.
– Jacinta Passos (Bahia, 26 de agosto de 1938). em “A Ordem”. Rio de Janeiro, jan/jun, 1940.


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