Cântico de exílio

Estou cansada, Senhor.
Minha alma insaciável,
a minha alma faminta de beleza,
ávida de perfeição,
é perseguida pelo teu amor.
Puseste dentro dela esta ânsia infinita
cujo ardor queima,
como a sede que em pleno deserto escaldante
persegue o viajor.
Esta angústia, que cresce e que vibra e palpita,
nasceu dentro em mim
no mesmo divino instante
em que, morrendo a última ilusão,
só me restava afinal
uma fria certeza,
cortante como o gume dum punhal.
A certeza de que, tendo tudo no mundo,
nada
pode encher o vazio do meu desejo,
do meu desejo profundo.
Na aridez de minha alma desolada,
esta angústia brotou,
como brota no solo sertanejo,
no solo nu, exausto e sofredor,
solo onde a seca vai matando a vida,
a última flor
– a flor sangrenta do cacto –
cuja raiz parece que sugou
todo o sangue da terra dolorida.
Compreendi, Senhor, compreendi
a voz que sobe
do fundo misterioso do meu ser.
Esta angústia que vive dentro em mim
somente há de ter fim
quando nada mais existir entre nós,
quando, num dia sem crepúsculo,
eu me abismar em ti,
no teu esplendor absoluto.
Mas apenas começo a caminhar,
estou cansada, Senhor.
É bem longo o caminho a percorrer
e sinto-me sozinha.
Levanto os braços para o céu distante
como a palmeira – longo anseio de infinito –
que no deserto se ergue, solitária,
em busca do azul.
Suplico humildemente o teu auxílio.
Dos meus lábios, irrompe como um grito
meu cântico de exílio.
Ah! Senhor, quando se há de realizar
a aspiração profunda do meu ser?
– Jacinta Passos (1937), em parte I “Momentos de Poesia”, do livro ‘Nossos poemas’. Salvador: A Editora Bahiana, 1942


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