Crepúsculo

Vai lentamente agonizando o dia…
O poente onde, há pouco, o sol ardia,
se tingiu de cor de ouro, luminosa.
Tons desmaiados de lilás e rosa
listram o puro azul do firmamento
– um poema de luz, neste momento.
A sombra de mansinho vem caindo
e o contorno das coisas, diluindo.
Pesa um grande silêncio, enorme e mudo.
Desce suavemente sobre tudo,
uma bênção dulcíssima de paz.
A treva escura que vem vindo traz
uma saudade vaga, indefinida…
saudade do que já passou na vida,
saudade mansa, boa, imensa e triste,
saudade até dum bem que não existe,
nostalgia sem fim da perfeição
que, nessa hora, invade o coração.
A alma das coisas que vagava a esmo
parece ir recolhendo-se em si mesma,
pondo-se então a meditar consigo.
A silhueta de um convento antigo
ergue-se negra, austera e secular,
banhada em doce luz crepuscular,
no fundo luminoso do poente.
É a longa torre uma oração silente.
Parece uma blasfêmia, o negro véu
de fumaça manchando o ouro do céu.
O silêncio, de súbito, estremece
e pelo ar passa um frêmito de prece.
Vibrou a alma sonora da paisagem
e o canto vem tangido pela aragem.
Quando, do sino, a voz forte badala,
Todo o rumor em derredor se cala
e escuta a voz que soa, alta e vibrante,
na quietude da tarde agonizante.
– Jacinta (1935), em parte I “Momentos de Poesia”, do livro ‘Nossos poemas’. Salvador: A Editora Bahiana, 1942.


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