Mensagem às crianças do mundo

Crianças da Ásia, a velha escrava lendária
que embalou o berço dos primeiros homens do mundo,
crianças da Ásia, a velha escrava lendária
de cujo seio escorre a riqueza como um leite precioso
que os outros homens do mundo arrancam da boca dos seus filhos.
Crianças chinesas, pequeninos heróis de olhos oblíquos,
na célula inicial do vosso ser
ficou impresso o heroísmo cotidiano da resistência
que já se tornou uma forma de vida do vosso povo, crianças da China.
Crianças da Europa,
da França, Polônia, Itália, Bélgica, Suécia,
vossas pátrias entregaram-se ao invasor
como mulheres que se entregam com medo, sem amor,
vossas pátrias são escravas silenciosas, crianças da Europa.
Crianças alemãs,
fabricadas,
mecanizadas,
exatamente iguais como soldadinhos de chumbo,
que aprendem somente a odiar,
que não conhecem um brinquedo,
crianças sem infância,
vós não sois vós mesmas, crianças da Alemanha.
Crianças judias, vosso povo continua a sofrer,
sobre vós pairam as mesmas mãos assassinas
que degolaram, como há dois mil anos na Judeia,
centenas de cabecinhas infantis e risonhas como as vossas, crianças judias.
Crianças da Rússia, a pátria misteriosa
cujo roteiro os donos do mundo ocultavam
como os antigos roteiros dos tesouros que os bandeirantes, ávidos, buscavam,
crianças da Rússia, a pátria misteriosa
que Stalingrado revelou ao mundo.
Crianças nativas das ilhas oceânicas,
vossos olhos descobrem
que para além das praias e dos coqueiros não existe apenas o mar.
Vossos olhos espiam assustados
as grandes aves metálicas e os monstros marinhos carregados de homens,
homens dos continentes distantes que vêm matar e morrer nas vossas ilhas
oceânicas
Crianças da África, dessa África que no deserto e nas selvas
luta há milênios, luta para ser, luta elementar e titânica
contra o sol, o vento, as águas, as feras bravias e o homem branco.
Crianças da América mestiça, a mulher nova e livre
que concebeu Juarez, Castro Alves, Whitman e Bolívar.
Crianças do mundo, guardai esta mensagem
até o dia em que vossos olhos descubram
que não é apenas um papel rabiscado ou uma lição difícil de soletrar.
Muito além desta hora terrível,
o pão,
o fogo,
a água,
a terra,
o ar,
alegrias elementares pelas quais os homens lutam,
permanecem.
Muito além das dores e dos ódios milenares,
muito além de todas as coisas,
muito além do bem e muito além do mal,
a vida permanece.
Muito além desta hora terrível,
chegará um tempo no tempo
em que a polícia, a moral, as leis e todas as coisas acidentais
serão inúteis para a comunidade humana
como remédios para um organismo que recuperou a saúde.
Chegará um tempo no tempo
em que na terra conquistada, os homens, todos os homens, como vós, minhas
puras criancinhas
receberão a vida, a vida simplesmente, como o dom supremo.
– Jacinta Passos (1942), em “Canção da partida”. São Paulo: Edições Gaveta, 1945.


Comments are closed here.