O mar

Múrmuro e lento,
o mar ao longe se espraia.
Geme e brame, ruge e clama
o seu tormento,
e, soluçando, vem morrer na praia.
O mar imenso…
Quando eu escuto o seu rumor soturno,
fico a cismar.
Penso
no destino do mar
– ser eterno cantor –
cantar a sua dor de eterno insatisfeito,
cantar o seu sonho infinito desfeito,
cantar o mesmo canto que embalou
a infância do mundo.
O mar imenso… encarcerado
dentro dos frios limites dum traçado.
Ouço vozes estranhas… Vem do fundo
do mar ou de dentro de mim,
esse surdo clamor?
São vozes obscuras,
vozes desconhecidas,
vozes que irrompem
da parte ignorada de mim mesma.
Por que esta sede imensa de saber,
desvendar os segredos escondidos,
despir as coisas
de suas transitórias aparências,
penetrar no seu âmago,
ver a essência do ser?
Pobre desejo humano esbarra, mudo,
ante o mistério de tudo.
Por que este desejar que não se cansa,
por que este destino errante de correr
sempre atrás dum bem que não se alcança?
Anseio de sentir-se um instante feliz,
anseio de eternizar esse instante que passa,
perdendo-se no passado, no infinito do tempo,
como se perde um pouco de fumaça
na amplidão dos espaços infinitos…
Por que este desejar que não tem fim,
se o mísero coração
sabe que nenhum bem lhe satisfaz?
Foge o minuto fugaz
e no fundo de toda ventura sorvida
há um gosto de cinza.
Perguntas sem resposta, atiradas à toa,
inutilmente…
Ouço vozes estranhas… Vem do fundo
do mar ou de dentro de mim
esse surdo clamor?
São vozes de sofrimento, de amarguras,
vozes de todas as criaturas
que falam por minha voz.
Todas as criaturas que sofreram
esta ânsia indefinida
– angústia milenária como a vida –
de querer atingir o inatingível.
Vozes de todos que sentiram, vivo,
cruel, o trágico destino humano
de pássaro cativo:
– ter diante de si o vasto céu azul,
luminoso e ardente,
ter asas, asas para bem alto subir,
e sentir
que não pode voar,
impotente… impotente…
– Jacinta Passos (1935), em parte I “Momentos de Poesia”, do livro ‘Nossos poemas’. Salvador: A Editora Bahiana, 1942.


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