Sangue Negro

para Jorge Amado

Terras curvas do Recôncavo
onde adormece o oceano,
no teu subsolo circula
sangue negro cor da noite,
da cor do preto africano,
preto cujo sangue escravo
regou o solo baiano.
Terras curvas do Recôncavo
onde adormece o oceano,
de tuas veias abertas
escorre
o petróleo baiano,
sangue negro do Brasil. 
Operário mestiço!
tuas ásperas mãos – e tu não sabes disso –
tuas mãos quando movem as máquinas do Poço
movem forças latentes,
movem forças criadoras,
movem o Brasil, tuas mãos libertadoras.
Teu gesto inicial se transmite e propaga,
repercute longe até nas selvas do Oeste
e cresce, desdobrado como cresce uma onda
de mar,
cresce e acelera o ritmo de Volta Redonda,
gerando máquinas sem parar,
e gera usinas
onde o ferro e os metais tirados das minas
do ventre da terra,
se transformam em carros e trens, navios e aviões, em armas de guerra.
E as máquinas nascidas do teu movimento,
rápidas mensagens humanas levarão,
mensagens de conhecimento,
mensagens de aproximação
entre todos os brasileiros
irmãos que a distância isolou, como estrangeiros,
em plena solidão.
O gaúcho galopando nos pampas do sul,
freará o cavalo
e vai, surpreso, descobrir no vale amazônico
onde dormem forças primordiais,
que irmãos nortistas modelam um mundo novo,
com a borracha,
a borracha que desce dos longos seringais.
No Nordeste, o vaqueiro cantará:
O homem tira da terra,
a chuva que o céu não dá.
Rã quando canta não erra,
é chuva que vai chegá,
o homem tira da terra,
a chuva que o céu não dá.
Boi gordo pasta na serra,
tão contente a gente está,
o homem tira da terra,
a chuva que o céu não dá.
Quando venceu nossa guerra
logo peguei a cantá,
o homem tira da terra,
a chuva que o céu não dá.
O lavrador
largará a enxada que dos pais recebeu
e moverá os arados mecânicos
que os homens de outras terras lhe ensinaram
através da distância e dos ventos oceânicos.
Operário mestiço!
teu gesto inicial que faz brotar os frutos
e nascer as grandes cidades,
teu gesto move as máquinas da indústria,
move o Brasil,
move o povo crescendo, amadurecendo, se tornando viril.
Terras curvas do Recôncavo
onde adormece o oceano,
no teu subsolo circula
sangue negro cor da noite,
da cor preto-africano,
preto cujo sangue escravo
regou o solo baiano.
Terras curvas do Recôncavo
onde adormece o oceano,
de tuas veias abertas
escorre
o petróleo baiano,
sangue negro do Brasil.
– Jacinta Passos (1943), em “Canção da partida”. São Paulo: Edições Gaveta, 1945.


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