Jenyffer Nascimento

Menina bonita sem laço de fita

Laço de fita?Nunca botou no cabeloDiz que é feio, não combina. Menina, só quer ser bonita. Do nariz já não gostaDa boca tem vergonha.Toda semana o ritual.Acorda cedo, lava o cabeloSepara mecha por mechaComeça a chapinha.Às vezes o couro arde, queima.Ela já não liga. Gosto assimQuando passa na rua e alguém diz:– Psiu, ô morena, • Read More »


Prefiro a guerra

Telefone toca.Sinto a navalha na carneE o sangue esguichando.Rapidamente os rumos mudam. Rua de cimaRua de baixoÉ a porta direita do carro que se abreSem pausas e sem sorriso. Aquela boca morta.A mesma que te beijaÉ a boca que te corta.É a fala que sai da bocaQue de fato me apavora. Abro o portãoSubo as • Read More »


Carne de mulher

Nua em frente ao espelhoMe olhoMe observoMe vejoE me sinto mulher. Nas ruas é bem diferente.Mesmo vestidaMe olhamMe observamMe veeComo pedaço de carne. Quanto vale ou é por quilo?Carne de primeira, de segundaCarne de mulher?Carne de vaca?Seria eu uma vaca? Cadê a mulher que eu era quando saí de casa? Não! Não aceito! Me recuso!Eu • Read More »


Reféns da metrópole

Não me espereDevo chegar atrasadaComo tantas outras vezes. Este que insiste em me acordarFinge controlar o tempoMas não passa de um objeto amorfoPonteiros em busca de uma identidade. O sol adentra a janelaVivaz como nuncaImpondo obrigações a algunsCriando possibilidades para outros. Buzinas, sirenes, faróisCompõem a poética da manhãNada mais que remetaAo baixo meretrício da noite • Read More »


Rio – São Paulo

Os bancos da rodoviáriaFicam mais cenográficosPelas duas de manhã.Em um completo vazio poéticoHabitam ali os que já passaramE aqueles que ainda não chegaram. Eis que já é hora de voltar. As ruas da Lapa tão atraentesCom seus arcos, suas gentesPeriga fingir que saudade não seteMas sente…E como sente! O bar da cachaçaOnde a gente se • Read More »


Identidade

Cansei de ser uma foto 3×4Acompanhada por uma sequência de dígitos. Cansei de ser númeroNo RG, CPF, Título de EleitorPassaporte, Carteira de Trabalho.A burocracia nunca me enxerga como gente.  Eles não sabem da cor azulQue fui a Bahia e vi Dona Canô na festa de ReisQue choro quando leio a Cor PúrpuraNem que passo as tardes • Read More »


Samba jazz

Ele gosta de jazzFrequenta cafés e lugares cult.Já leu Morin, Bourdieu e OswaldFã de Glauber como Deus e o Diabo. A Terra em Transa, transe. De tão existencialistaDivagava horas sobreO tal sentido da vida. Ela não.Só queria saber de viver. Criada no sambaNo ruído da cuíca.Frequentava bares, biroscas, botequins.Além das receitas dos remédios de sua • Read More »


Douglas, Amarildo e Claudia

DOUGLAS poderia estar em um cursinho pré-vestibular gratuitoJá que a escola não o preparou para as universidades públicasE, quem sabe, com dedicação e esforço no ano que vem seria eleO próximo aluno negro a entrar em Geografia na UNESPDe mudança para Presidente PrudenteLevando na bagagem os sonhos colhidos na Zona Norte.Não deu tempo. Só conseguiu balbuciar:Por • Read More »


Raízes

Chão de terraTerra pretaPreta é a tua pele.Olhares dispersosOlhares cruzadosSonhos roubados Chão de terraTerra pretaQuebraram-se as correntes.Nunca houve correntesA vontade era tantaNão conseguiu conter. Chão de terraTerra pretaAmanhece.Exalam cheiros íntimos,Pelas fretas contrastam os tonsQuero denegrir. Chão de terraTerra PretaFértil. Cresce uma raiz grossaBrota um desejo únicoSentir seu gosto negro Chão de terraTerra pretaUma descendência inteiraNa • Read More »


Do amor

O primeiro homem negro que ameiNão sabia que era negroMas a polícia sabia bem.Tirando os beijos trocados na porta da escolaDemonstração de afeto, coisa rara.Revolta era o sentimento mais comumA maneira de dividir a dorDe dividir a cor. O segundo homem negro que ameiFoi doce, amoroso e companheiroTínhamos o hip-hop como pano de fundoDançamos, vivemos • Read More »