Do amor

O primeiro homem negro que amei
Não sabia que era negro
Mas a polícia sabia bem.
Tirando os beijos trocados na porta da escola
Demonstração de afeto, coisa rara.
Revolta era o sentimento mais comum
A maneira de dividir a dor
De dividir a cor.

O segundo homem negro que amei
Foi doce, amoroso e companheiro
Tínhamos o hip-hop como pano de fundo
Dançamos, vivemos à rua, o mundo!
Não fosse o ciúme: amor = prisão.
Numa crise me chamou de vagabunda
Me empurrou do escadão.
Chorou arrependido, mas não deu
Não deu mais para o amor.

O terceiro homem negro que amei
Faceiro, moleque de terreiro
Por seu encanto caí no samba de roda.
A roda rodou, gira girou.
Tivemos um filho, negro menino.
As dificuldades da convivência
Transformaram o sonho de amor
Em traições, mentiras e abandono.
Quando sentiu me perder foi tarde
Era ele quem tinha se perdido

O quarto homem negro que amei
Já havia amado muitas mulheres
Mas nunca se deparado com um negro amor.
Eu o amei com gosto de liberdade
Um jeito que ele nunca entendeu.
Este, se me amou foi em segredo
Na ferocidade do sexo
Encoberto por lençóis floridos
Em agudos gemidos.

O quinto homem negro que amei
Era poeta, sensibilidade aflorada.
Seus crespos emaranhados aos meus
Duraram uma primavera, assistida da janela.
Um dia o poeta, quis por bem fazer discurso:
“Mulheres negras são difíceis, cheias de complexo”
Era a moça branca com quem ia se casar
Sugeriu que eu fosse sua amante.
Chorei muito, não de amor.

Todos os homens que amei são negros.

Não me julgue o coração
Eu só quero amar.
Apenas.

                              (Terra fértil, p. 46)


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *