João Cabral de Melo Neto

Psicologia da composição (trecho)

Saio de meu poemacomo quem lava as mãos.Algumas conchas tornaram-se,que o sol da atençãocristalizou; alguma palavraque desabrochei, como a um pássaro.Talvez alguma conchadessas (ou pássaro) lembre,côncava, o corpo do gestoextinto que o ar já preencheu;talvez, como a camisavazia, que despi.Esta folha brancame proscreve o sonho,me incita ao versonítido e preciso.Eu me refugionesta praia puraonde nada • Read More »


Graciliano Ramos

Falo somente com o que falo:com as mesmas vinte palavrasgirando ao redor do solque as limpa do que não é faca:de toda uma crosta viscosa,resto de janta abaianada,que fica na lâmina e cegaseu gosto da cicatriz clara.Falo somente do que falo:do seco e de suas paisagens,Nordestes, debaixo de um solali do mais quente vinagre:que reduz • Read More »


Os três mal amados

O amor comeu meu nome, minha identidade,meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,minha genealogia, meu endereço. O amorcomeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todosos papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhascamisas. O amor comeu metros e metros degravatas. O amor comeu a • Read More »


Catar feijão

1. Catar feijão se limita com escrever:Jogam-se os grãos na água do alguidarE as palavras na folha de papel;e depois, joga-se fora o que boiar.Certo, toda palavra boiará no papel,água congelada, por chumbo seu verbo;pois catar esse feijão, soprar nele,e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 2. Ora, nesse catar feijão entra • Read More »


Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:ele precisará sempre de outros galos.De um que apanhe esse grito que elee o lance a outro; de um outro galoque apanhe o grito de um galo antese o lance a outro; e de outros galosque com muitos outros galos se cruzemos fios de sol de seus gritos de • Read More »


A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;Para aprender da pedra, frequentá-la;Captar sua voz inenfática, impessoal(pela de dicção ela começa as aulas).A lição de moral, sua resistência friaAo que flui e a fluir, a ser maleada;A de poética, sua carnadura concreta;A de economia, seu adensar-se compacta:Lições da pedra (de fora para dentro,Cartilha muda), para quem soletrá-la. Outra • Read More »


Fábula de um arquiteto

A arquitetura como construir portas,de abrir; ou como construir o aberto;construir, não como ilhar e prender,nem construir como fechar secretos;construir portas abertas, em portas;casas exclusivamente portas e tecto.O arquiteto: o que abre para o homem(tudo se sanearia desde casas abertas)portas por-onde, jamais portas-contra;por onde, livres: ar luz razão certa. Até que, tantos livres o amedrontando,renegou • Read More »


Morte e Vida Severina (trecho)

— O meu nome é Severino,como não tenho outro de pia.Como há muitos Severinos,que é santo de romaria,deram então de me chamarSeverino de Maria;como há muitos Severinoscom mães chamadas Maria,fiquei sendo o da Mariado finado Zacarias.Mais isso ainda diz pouco:há muitos na freguesia,por causa de um coronelque se chamou Zacariase que foi o mais antigosenhor • Read More »


O relógio

Ao redor da vida do homemhá certas caixas de vidro,dentro das quais, como em jaula,se ouve palpitar um bicho. Se são jaulas não é certo;mais perto estão das gaiolasao menos, pelo tamanhoe quadradiço de forma. Umas vezes, tais gaiolasvão penduradas nos muros;outras vezes, mais privadas,vão num bolso, num dos pulsos. Mas onde esteja: a gaiolaserá • Read More »


O Cão Sem Plumas

João Cabral de Melo Neto A cidade é passada pelo rio como uma rua é passada por um cachorro; uma fruta por uma espada. O rio ora lembrava a língua mansa de um cão ora o ventre triste de um cão, ora o outro rio de aquoso pano sujo dos olhos de um cão. Aquele • Read More »