Jorge de Lima

Anjo daltônico

Tempo da infância, cinza de borralho,tempo esfumado sobre vila e rioe tumba e cal e coisas que eu não valho,cobre isso tudo em que me denuncio. Há também essa face que sumiue o espelho triste e o rei desse baralho.Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.Veste esse rei um manto de espantalho. Era daltônico o • Read More »


Essa Negra Fulô

Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo) no bangüê dum meu avô uma negra bonitinha, chamada negra Fulô. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) — Vai forrar a minha cama pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô! Essa • Read More »


XXVII

Há uns eclipses, há; e há outros casos: de sementes de coisas serem outras, rochedos esvoaçados por acasos e acasos serem tudo, coisas todas. Lãs de faces, madeiras invisíveis, visão de coitos entre os impossíveis, folhas brotando de âmagos de bronze, demônios tristes choros nas bifrontes. Tudo é veleiro sobre as ondas íris, condores podem • Read More »


XVIII

Éguas vieram, à tarde, perseguidas, depositaram bostas sob as vides. Logo após as borboletas vespertinas, gordas e veludosas como urtigas sugar vieram o esterco fumegante. Se as vísseis, vós diríeis que o composto das asas e dos restos eram flores. Porque parecem sexos; nesse instante, os mais belos centauros do alto empíreo, pelas pétalas desceram • Read More »


O grande desastre aéreo de ontem

Para Cândido Portinari Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo • Read More »


A tristeza era tanta, tanta a mágoa

A tristeza era tanta, tanta a mágoa que seu anjo da guarda resolvera lutar com ele, lutar para lutar, que o interesse da vida perecera. Ave e serpente, círculo e pirâmide, os olhos em fuzil e os doces olhos, os laços, os vôos livres e as escamas. Que doida simetria nesses ódios! Que forças transcendentes • Read More »


Vinha boiando o corpo adolescente…

Vinha boiando o corpo adolescente, belo pastor e sonho perturbado. Deus abaixou-lhe os cílios alongados para que ele dormindo flutuasse. Ressuscita-o, Senhor, essa medusa de sangue juvenil em rosto impúbere, desterrado da vida, flor perdida, irmão gêmeo de Apolo trimagista. Seca-lhe a espuma que lhe inunda o peito e as convulsões mortais que o imolaram • Read More »


XV

A garupa da vaca era palustre e bela, uma penugem havia em seu queixo formoso; e na fronte lunada onde ardia uma estrela pairava um pensamento em constante repouso. Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela que do fundo do sonho eu às vezes esposo e confunde-se à noite à outra imagem • Read More »


Alta noite quando escreveis

À senhora Heitor Usai Alta noite, quando escreveis um poema qualquer sem sentirdes o que escreveis, olhai vossa mão — que vossa mão não vos pertence mais; olhai como parece uma asa que viesse de longe. Olhai a luz que de momento a momento sai entre os seus dedos recurvos. Olhai a Grande Mão que • Read More »


Cantigas

As cantigas lavam a roupa das lavadeiras. As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras ficam tão tristes, tão                              pensativas! As cantigas tangem os bois dos boiadeiros! ¬ Os bois são morosos, a carga é tão grande! O caminho é tão comprido que não tem fim. As cantigas são leves … E as cantigas levam • Read More »


O acendedor de lampiões

Lá vem o acendedor de lampiões de rua! Este mesmo que vem, infatigavelmente, Parodiar o Sol e associar-se à lua Quando a sobra da noite enegrece o poente. Um, dois, três lampiões, acende e continua Outros mais a acender imperturbavelmente, À medida que a noite, aos poucos, se acentua E a palidez da lua apenas • Read More »


Mulher proletária

Mulher proletária — única fábricaque o operário tem, (fabrica filhos)tuna tua superprodução de máquina humanaforneces anjos para o Senhor Jesus,forneces braços para o senhor burguês. Mulher proletária,o operário, teu proprietáriohá de ver, há de ver:a tua produção,a tua superprodução,ao contrário das máquinas burguesassalvar o teu proprietário.


Invenção de Orfeu

Jorge de Lima 1. Um barão assinalado sem brasão, sem gume e fama cumpre apenas o seu fado: amar, louvar sua dama, dia e noite navegar, que é de aquém e de além-mar a ilha que busca e amor que ama. Nobre apenas de memórias, vai lembrando de seus dias, dias que são as histórias, • Read More »