Júlia Cortines

VIII

Como é doce seguir o teu rastro, ó saudade,Se equilibras no azul, à branda claridadeDe um sonhado luar, as tuas asas mansasDoiradas pela luz das nossas esperanças,E levas para longe o teu voo, a um passadoDe sorrisos e amor e sonhos estrelado,Onde vemos alguém, que sobre nós derramaDo seu profundo olhar a cariciosa chama,Fazendo rebentar • Read More »


V

Do mês de Maio a luz do sol mais brandoDesce do espaço em leves frocos de ouro,E, pelos frios ares ondulando,Envolve a mata e espelha o sorvedouro.Se enrola o raio aveludado e louroPelos ramos, aos quais, se aproximandoAs horas do crepúsculo, cantandoVoltam as aves em alegre coro.Mas nem sequer eu na janela assomo.Só vejo a • Read More »


IV

Com triste olhar seguindoOs pássaros, que em bandoLá voam para o azul da montanha fronteiraEnvolta na doirada e lúcida poeira,Que foge, à proporção que o sol vai recuandoE a sombra vai subindo; Penso no amor infindoQue me prendeu ao brandoRaio do teu olhar; e minha alma de poetaDeixa a sombra que a cerca, e voa, • Read More »


Dor eterna

O tempo – dizem – apagaO prazer e o sofrimentoSobre eles rolando a vagaSombria do esquecimento.E transforma encantadoresSítios, que tu, Abril, vestesDe uma gaze de esplendores,Em sítios feios e agrestes.E faz germinar nas águas,Que bebe a gandra bravia,O lírio, como das mágoasBrota a flor da alegria.E, no entretanto, contemplo,Extática e dolorosa,Entre os escombros de um • Read More »


Via dolorosa

Alma, galgando vais o teu Calvário abrupto,Em farrapos, em sangue, em lágrimas, em luto,Por fragas arrastando, em convulsões de dor,O lenho, que te verga ao peso esmagador.Ruge em torno de ti a tempestade; o açoiteDo vento dilacera a cortina da noite.Como um túrbido mar, roto pelo escarcéu,Vês na altura rolar o proceloso céu,E em baixo, • Read More »


Vozes da noite

Pesa a calma da noite em derredor. Um choro Brando às súbitas soa No silêncio, que após um tumultuoso coro De soluços e de ais e de gritos povoa: – Vão e eterno clamor da humana criatura, Presa da desventura. Quanta dor a gemer nessa orquestra assombrosa! Revoltado e dorido, Vibra o grito de alguém, • Read More »


Por toda parte

Interrogaste a vida: interrogaste o arcano, Misterioso sentir do coração humano; A mesta palidez serena do luar; O murmúrio plangente e soturno do mar; O réptil, que rasteja; o pássaro, que voa; A fera, cujo berro as solidões atroa; A desenfreada fúria insana do tufão; A planta a se estorcer numa atroz convulsão. Interrogaste, enfim, • Read More »


Finis

Ouço um surdo, abafado e discorde ruído, Logo após um fragor que pelos ares trona. Qual se dum terremoto o solo sacudido Fosse, em torno de mim tudo se desmorona. O que é feito de vós, altivos monumentos, Que afrontáveis do tempo os inúteis furores, Mergulhando no azul dos largos firmamentos, Mergulhando dos céus nos • Read More »


Tarde de inverno

(A Cartola Cortines) Sob o curvo cristal da imensidade De um céu de transparência etérea e fria, Em que do posto sol a claridade, Azul e melancólica, radia, Vemos o bosque, o rio, a amenidade Das sombras, a ondulada pradaria, Como um painel de estranha suavidade E encantadora e rústica poesia. Olha como o formoso • Read More »


Terra ideal

Como um pássaro, abrir na amplidão do horizonte As asas eu quisera, e a uma terra voar Que existe para além do píncaro do monte E para além da toalha infinita do mar. Terra onde o pálio azul das auroras se estende, Sem nuvens, tinto de oiro o límpido fulgor, Por sobre um solo verde • Read More »


Dies iræ

A esse som de trombeta e de alarma, quem há de Dormir? Mortos, deixai a paz da sepultura E acorrei: o que ouvis é o clarim da Saudade! De pé! de pé! de pé! Despedaçai a dura Lousa que sobre vós lançou o esquecimento, Espectros do sofrer, fantasmas da ventura! Ó divina ilusão, que um • Read More »


Nostalgia selvagem

Longe, longe, a uma grande, infinita distância,Que não me será dado afrontar nunca mais,Fica a terra onde vi deslizar minha infância:Tal, sob um bosque em flor e um ar todo fragrância,Um arroio a correr através dos juncais.Vejo ainda essa pátria adorada e formosa:– Densa e verde, a floresta infinda se estenderPor sob um céu azul, • Read More »


Sonhadores

Almas – da natureza a execrada exceção – Em que o Sonho ateou seu nefasto clarão, Vós que, presas à terra, a asa do pensamento Sentis sempre a voar, em livre movimento, Para o distante azul dos mundos ideais, Onde o bem que buscais não existiu jamais; Vós que abris, procurando o mistério das coisas, • Read More »


À beira do abismo

Morta, enfim, a esperança e desfeita a quimera, Tu chegaste da vida ao cimo da montanha, Onde, no calmo horror da solidão que impera, Nada mais te acompanha. Nada mais, a não ser o encarniçado apego À existência ante a lei implacável da sorte, Que a teus pés abre agora o inevitável pego Misterioso da • Read More »


A um cadáver

Eis-te, enfim, a dormir o teu sono de morte:Semicerrado o olhar, as pupilas serenas,Na atitude de quem nada teme da sorte,Deslembrado do amor e esquecido das penas.Nada pode turbar-te em teu repouso: estalaO raio, a lacerar das nuvens os vestidos;No espaço a luz se extingue, o estampido se cala,Sem vir ferir-te o olhar ou ferir-te • Read More »


Sinal na fonte

(ADA NEGRI)Uma estrangeira, em púrpuras e gala,Tocou-me a fronte com um dedo, e riu-se.Um frêmito me abala.E disse-me: “Um sinal tu tens na fronte,Talhado em forma de uma cruz bizarra.Tens um sinal na fronte.Dos anos teus no afortunado giroSempre o trarás contigo – pois abriu-oA boca d’um vampiro,Que da tua existência a melhor parteÁvido suga, • Read More »


O infinito

(G. LEOPARDI)AO DR. ESPERIDIÃO ELOY FILHO. Sempre caro me foi este ermo cole,Mais esta sebe, que de tanta parteO longínquo horizonte à vista oculta.Mas, se me assento, contemplando-a, espaçosIntérminos além, e sobre-humanoSilêncio, e profundíssima quietudeMeu pensamento fantasia; e quaseSe me apavora o coração. Se o ventoOuço fremir nas árvores, aqueleInfinito silêncio a este murmúrioVou comparando: • Read More »


Soledade

Poeta, dentro de ti, desmesurado e arcano,Ou se cava, ou se empola, ou se espedaça o oceanoDe tua alma, que exala um contínuo clamor,– Brados de imprecações e soluços de dor!Nele canta e suspira a lânguida sereiaDo Amor; a Mágoa geme; a Cólera estrondeia;E a essas vozes se prende a dolorida vozDa Saudade, chorando o • Read More »


Indiferente

E vão assim as horas! – Vão fugindoUm após outro os dias voadores,Ao túmulo do olvido conduzindoAs alegrias como os dissabores,O sonho agita as asas multicores,E vai-se e vai-se rápido sumindo,Enquanto a vaga quérula das doresSoluça, e rola pelo espaço infindo…A mim, porém a mim, a mim que importa,A mim, cuja esperança há muito é • Read More »


Entre abismos

Mistérios só, de um lado, e sombras…Em seguida,A estrada tortuosa e aspérrima da vida,Onde impreca a Revolta, onde brada o Terror,Onde geme a Saudade e se lastima a Dor,E, co’o gesto convulso e os traços descompostos,Batidos pelo vento, à tempestade expostos,Atropelam-se, em doida e febril confusão,O Desespero, a Raiva, a Cólera, a Paixão,Cujo concerto de • Read More »


Ancião africano

A testa negra sob a carapinha branca.Da longa escravidão a tremenda torturaNão lhe alterou da face a expressão de doçura.Um riso bom entreabre a sua boca franca.A vingança do peito um brado não lhe arranca;Em seu tranquilo olhar o rancor não fulgura,Quando, na resignada e humílima postura,Vê se erguer uma mão que ameaça e que • Read More »


Em vão

É a ilusão, bem vejo: em tua fronte Inda fulge um resplendor de aurora. Tens o mesmo sorriso com que outrora Deliciavas a minha alma insonte. Debalde apontas para além do monte Prainos que a ardência do verão enflora; Asas vibrando pelos céus em fora, Céus sem nuvens, sem raias o horizonte… Esta grandiosa e • Read More »


Anfitrite

(Sobre uma página de Fénelon) Tinta a escama de azul e de oiro, solevandoEm seus brincos a vaga espúmea, pelo bandoDos alegres tritões, que os búzios retorcidosSopram, enchendo o ar de músicos ruídos,Acompanhados, vão os ligeiros golfinhosSeguindo de Anfitrite o carro, que marinhosCorcéis, – que têm na cor cetinosa do peloA brancura da neve e • Read More »


Eternidade

Eternidade d’alma! ilusória miragem, Que a alma busca através da crença e do terror, A idear uma calma ou sombria paragem De infinito prazer ou de infinita dor!Por que há de haver além, noutro mundo distante, Um prêmio eterno para a virtude mortal? E para o ser que vive apenas um instante Por que há • Read More »


Alma solitária

O que sentias era o que ninguém sentia:– O ódio, o amor, a saudade, a revolta tremenda.Não há ninguém que te ame e te console e entenda.Ninguém compartilhou tua funda agonia.A alma que possuir acreditaste, um dia,Indiferente, vai a trilhar outra senda.Do infinito deserto ergueste a tua tendaEm meio à solidão da paisagem vazia…E ora • Read More »