À beira do abismo

Morta, enfim, a esperança e desfeita a quimera, Tu chegaste da vida ao cimo da montanha, Onde, no calmo horror da solidão que impera,

Nada mais te acompanha.

Nada mais, a não ser o encarniçado apego À existência ante a lei implacável da sorte, Que a teus pés abre agora o inevitável pego

Misterioso da morte.

Que há, porém, nessa crua e falaz existência, Que tu possas querer, infeliz criatura, Tu que dela provaste a bárbara inclemência

E a infinita amargura?

Tu que viste rolar pelo solo os escombros De tudo o que nasceu para morrer num dia, E a Natureza-Mãe surda à voz dos assombros,

Surda à voz da agonia;

E o Deus bom, o Deus justo, o Deus onipotente, Que a distância, no espaço, a sua face oculta, Insensível à fé, que exora, e indiferente

À blasfêmia, que insulta;E o lugar de um poder a outro poder ser dado: A lei substituir o capricho divino, E o Homem sempre através das idades levado

Pela mão do Destino?!

Abandona-te, pois. Transpõe o curto espaço Que te separa então do final paroxismo, P’ra da morte cair, dado o intrépido passo,

No silencioso abismo,

Onde vai se extinguir o que a carne padece Desde o primeiro choro ao último gemido, E onde a ideia e a paixão, tudo desaparece

Sob as ondas do olvido..


Comments are closed here.