Machado de Assis

Visio

Eras pálida. E os cabelos,Aéreos, soltos novelos,Sobre as espáduas caíamOs olhos meio-cerradosDe volúpia e de ternuraEntre lágrimas luziamE os braços entrelaçados,Como cingindo a ventura,Ao teu seio me cingiram Depois, naquele delírio,Suave, doce martírioDe pouquíssimos instantesOs teus lábios sequiosos,Frios trêmulos, trocavamOs beijos mais delirantes,E no supremo dos gozosAnte os anjos se casavamNossas almas palpitantesDepois a verdade,A • Read More »


Stella

Já raro e mais escassoA noite arrasta o manto,E verte o último prantoPor todo o vasto espaço. Tíbio clarão já coraA tela do horizonte,E já de sobre o monteVem debruçar-se a aurora À muda e torva irmã,Dormida de cansaço,Lá vem tomar o espaçoA virgem da manhã. Uma por uma, vãoAs pálidas estrelas,E vão, e vão • Read More »


Soneto de Natal

Um homem, — era aquela noite amiga,Noite cristã, berço do Nazareno, —Ao relembrar os dias de pequeno,E a viva dança, e a lépida cantiga, Quis transportar ao verso doce e amenoAs sensações da sua idade antiga,Naquela mesma velha noite amiga,Noite cristã, berço do Nazareno. Escolheu o soneto . . . A folha brancaPede-lhe a inspiração; • Read More »


Relíquia íntima

Ilustríssimo, caro e velho amigo, Na quinta-feira, nove do corrente,Preciso muito de falar contigo. E aproveitando o portador te digo,Que nessa ocasião terás presente,A esperada gravura de patenteEm que o Dante regressa do Inimigo. Manda-me pois dizer pelo bombeiroSe às três e meia te acharás postadoJunto à porta do Garnier livreiro: Senão, escolhe outro lugar • Read More »


Quando ela fala

Quando ela fala, pareceQue a voz da brisa se cala;Talvez um anjo emudeceQuando ela fala. Meu coração doloridoAs suas mágoas exala,E volta ao gozo perdidoQuando ela fala. Pudesse eu eternamente,Ao lado dela, escutá-la,Ouvir sua alma inocenteQuando ela fala. Minha alma, já semimorta,Conseguira ao céu alçá-laPorque o céu abre uma portaQuando ela fala.


Os dois horizontes

Um horizonte, — a saudadeDo que não há de voltar;Outro horizonte, — a esperançaDos tempos que hão de chegar;No presente, — sempre escuro, —Vive a alma ambiciosaNa ilusão voluptuosaDo passado e do futuro. Os doces brincos da infânciaSob as asas maternais,O vôo das andorinhas,A onda viva e os rosais.O gozo do amor, sonhadoNum olhar profundo • Read More »


O verme

Existe uma flor que encerraCeleste orvalho e perfume.Plantou-a em fecunda terraMão benéfica de um nume.Um verme asqueroso e feio,Gerado em lodo mortal,Busca esta flor virginalE vai dormir-lhe no seio.Morde, sangra, rasga e mina,Suga-lhe a vida e o alento;A flor o cálix inclina;As folhas, leva-as o vento.Depois, nem resta o perfumeNos ares da solidão…Esta flor é • Read More »


No alto

O poeta chegara ao alto da montanha,E quando ia a descer a vertente do oeste,Viu uma cousa estranha,Uma figura má.Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,Num tom medroso e agrestePergunta o que será.Como se perde no ar um som festivo e doce,Ou bem como se fosseUm pensamento • Read More »


Livros e flores

Teus olhos são meus livros.Que livro há aí melhor,Em que melhor se leiaA página do amor?Flores me são teus lábios.Onde há mais bela flor,Em que melhor se bebaO bálsamo do amor?


Flor da mocidade

Eu conheço a mais bela flor;És tu, rosa da mocidade,Nascida aberta para o amor.Eu conheço a mais bela flor.Tem do céu a serena cor,E o perfume da virgindade.Eu conheço a mais bela flor,És tu, rosa da mocidade. Vive às vezes na solidão,Como filha da brisa agreste.Teme acaso indiscreta mão;Vive às vezes na solidão.Poupa a raiva • Read More »


Erro

Erro é teu. Amei-te um diaCom esse amor passageiroQue nasce na fantasiaE não chega ao coração;Não foi amor, foi apenasUma ligeira impressão;Um querer indiferente,Em tua presença, vivo,Morto, se estavas ausente,E se ora me vês esquivo,Se, como outrora, não vêsMeus incensos de poetaIr eu queimar a teus pés,É que, — como obra de um dia,Passou-me essa • Read More »


Epitáfio do México

Dobra o joelho: — é um túmulo.Embaixo amortalhadoJaz o cadáver tépidoDe um povo aniquilado;A prece melancólica Reza-lhe em torno à cruz.Ante o universo atônitoAbriu-se a estranha liça,Travou-se a luta férvidaDa força e da justiça;Contra a justiça, ó século,Venceu a espada e o obus.Venceu a força indômita;Mas a infeliz vencidaA mágoa, a dor, o ódio,Na face • Read More »


Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:“Quem me dera que eu fosse aquela loira estrelaQue arde no eterno azul, como uma eterna vela!”Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:“Pudesse eu copiar-te o transparente lume,Que, da grega coluna à gótica janela,Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela”Mas a lua, fitando o sol com azedume:“Mísera! Tivesse eu • Read More »


Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro.Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda a humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs o mundo inteiro.Trago-te flores – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa e • Read More »


A uma senhora que me pediu versos

Pensa em ti mesma, acharás Melhor poesia, Viveza, graça, alegria, Doçura e paz. Se já dei flores um dia, Quando rapaz, As que ora dou têm assaz Melancolia. Uma só das horas tuas Valem um mês Das almas já ressequidas. Os sóis e as luas Creio bem que Deus os fez Para outras vidas.