Manoel de Barros

Uma didática da invenção

I Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:a) Que o esplendor da manhã não se abre com facab) O modo como as violetas preparam o dia para morrerc) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulosd) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem • Read More »


O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.Gostei mais de um meninoque carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneiraera o mesmo que roubar um vento esair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmoque catar espinhos na água.O mesmo que criar peixes no bolso. O • Read More »


Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que culturaé o caminho que o homem percorre para se conhecer.Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fimfalou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisasdi-menor com a natureza. Aprendeu que as folhasdas árvores servem para nos ensinar a • Read More »


Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.Meu órgão de morrer me predomina.Estou sem eternidades.Não posso mais saber quando amanheço ontem.Está rengo de mim o amanhecer.Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.Atrás do ocaso fervem os insetos.Enfiei o que pude dentro de um grilo o meudestino.Essas coisas me mudam para cisco.A minha independência tem algemas


Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —sem nome.Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.Insetos errados de cor caíam no mar.A voz se estendeu na direção da boca.Caranguejos apertavam mangues.Vendo que havia na terraDependimentos demaisE tarefas muitas —Os homens começaram a roer unhas.Ficou certo pois nãoQue as moscas iriam • Read More »


Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.Meu fado é o de não saber quase tudo.Sobre o nada eu tenho profundidades.Não tenho conexões com a realidade.Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).Por essa pequena sentença me • Read More »


O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.Em toda a minha vida só engenhei3 máquinasComo sejam:Uma pequena manivela para pegar no sono.Um fazedor de amanhecerpara usamentos de poetasE um platinado de mandioca para ofordeco de meu irmão.Cheguei de ganhar um prêmio das indústriasautomobilísticas pelo Platinado de Mandioca.Fui aclamado de idiota pela maioriadas • Read More »


Retrato do artista quando coisa

A maior riquezado homemé sua incompletude.Nesse pontosou abastado.Palavras que me aceitamcomo sou— eu não aceito.Não aguento ser apenasum sujeito que abreportas, que puxaválvulas, que olha orelógio, que compra pãoàs 6 da tarde, que vailá fora, que aponta lápis,que vê a uva etc. etc.Perdoai. Mas eupreciso ser Outros.Eu pensorenovar o homemusando borboletas.


Apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.Não gosto das palavrasfatigadas de informar.Dou mais respeitoàs que vivem de barriga no chãotipo água pedra sapo.Entendo bem o sotaque das águasDou respeito às coisas desimportantese aos seres desimportantes.Prezo insetos mais que aviões.Prezo a velocidadedas tartarugas mais que a dos mísseis.Tenho em mim um atraso de nascença.Eu fui aparelhadopara • Read More »


O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.Tudo que não invento é falso.Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.Tem mais presença em mim o que me falta.Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.Sou muito preparado de conflitos.Não pode haver ausência • Read More »