A uma amiga

Eu a vi – gentil mimosa, 
Os lábios da cor da rosa, 
A voz um hino de amor! 
Eu a vi, lânguida, e bela: 
E ele a rever-se nela: 
Ele colibri – ela flor.

Tinha a face reclinada 
Sobre a débil mão nevada: 
Era a flor à beira-rio. 
A voz meiga, a voz fluente, 
Era um arrulo cadente, 
Era um vago murmúrio.

No langor dos olhos dela 
Havia expressão tão bela, 
Tão maga, tão sedutora, 
Que eu mesmo julguei-a anjo, 
Eloá, fada, ou arcanjo, 
Ou nuvem núncia d’aurora.

Eu vi – o seio lhe arfava: 
E ela… ela cismava, 
Cismava no que lhe ouvia; 
Não sei que frase era aquela: 
Só ele falava a ela, 
Só ela a frase entendia.

Eu tive tantos ciúmes!… 
Teria dos próprios numes, 
Se lhe falassem de amor. 
Porque, querê-la – só eu. 
Mas ela! – a outra ela deu 
meigo riso encantador… 
Ela esqueceu-se de mim 
Por ele… por ele, enfim.

         [ CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 207-208 ]


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