No álbum de uma amiga

D’amiga a existência tão triste, e cansada, 
De dor tão eivada, não queiras provar; 
Se a custo um sorriso desliza aparente, 
Que máguas não sente, que busca ocultar!?…

Os crus dissabores que eu sofro são tantos, 
São tantos os prantos, que vivo a chorar, 
É tanta a agonia, tão lenta e sentida, 
Que rouba-me a vida, sem nunca acabar.

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D’amiga a existência 
Não queiras provar, 
Há nelas tais dores, 
Que podem matar.

O pranto é ventura, 
Que almejo gozar; 
A dor é tão funda, 
Que estanca o chorar.

Se intento um sorriso, 
Que duro penar! 
Que chagas não sinto 
No peito sangrar!…

Não queiras a vida 
Que eu sofro – levar, 
Resume tais dores 
Que podem matar.

E eu as sofro todas, e nem sei 
Como posso existir! 
Vaga sombra entre os vivos, – mal podendo 
Meus pesares sentir.

Talvez assim deus queira o meu viver 
Tão cheio de amargura. 
P’ra que não ame a vida, e não me aterre 
A fria sepultura.

         [ CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 67-68 ]


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