Uma tarde no Cuman

Aqui minh’alma expande-se, e de amor 
Eu sinto transportado o peito meu; 
Aqui murmura o vento apaixonado, 
Ali sobre uma rocha o mar gemeu.

E sobre a branca areia – mansamente 
A onda enfraquecida exausta morre; 
Além, na linha azul dos horizontes, 
Ligeirinho baixel nas águas corre.

Quanta doce poesia, que me inspira 
O mago encanto destas praias nuas! 
Esta brisa, que afaga os meus cabelos, 
Semelha o acento dessas frases tuas.

Aqui se ameigam de meu peito as dores, 
Menos ardente me goteja o pranto; 
Aqui, na lira maviosa e doce 
Minha alma trina melodioso canto.

A mente vaga em solidões longínquas, 
Pulsa meu peito, e de paixão se exalta; 
Delírio vago, sedutor quebranto, 
Qual belo íris, meu desejo esmalta.

Vem comigo gozar destas delícias, 
Deste amor, que me inspira poesia; 
Vem provar-me a ternura de tu’alma, 
Ao som desta poética harmonia.

Sentirás ao ruído destas águas, 
Ao doce suspirar da viração, 
Quanto é grato o amor aqui jurado, 
Nas ribas deste mar, – na solidão.

Vem comigo gozar um só momento, 
Tanta beleza a me inspirar poesia! 
Ah! vem provar-me teu singelo amor 
Ao som das vagas, no cair do dia.

NB – Cuman – praias de Guimarães

         [ CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 25-26 ]


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