Mário Quintana

Tic-tac

Esse tic-tac dos relógiosé a máquina de costura do Tempoa fabricar mortalhas.


Segunda canção de muito longe

Havia um corredor que fazia cotovelo:Um mistério encanando com outro mistério, no escuro…Mas vamos fechar os olhosE pensar numa outra cousa… Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,Puxando a água fresca e profunda.Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,E lá • Read More »


Relógio

O mais feroz dos animais domésticosé o relógio de parede:conheço um que já devoroutrês gerações da minha família.


Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,teu perfil exato e que, apenas, levemente, o ventodas horas ponha um frêmito em teus cabelos…É preciso que a tua ausência trescalesutilmente, no ar, a trevo machucado,as folhas de alecrim desde há muito guardadasnão se sabe por quem nalgum móvel antigo…Mas é preciso, também, que seja como • Read More »


Poeminha do contra

Todos esses que aí estãoAtravancando meu caminho,Eles passarão…Eu passarinho!


Os poemas

Os poemas são pássaros que chegamnão se sabe de onde e pousamno livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voocomo de um alçapão.Eles não têm pousonem portoalimentam-se um instante em cada par de mãose partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,no maravilhado espanto de saberesque o alimento deles já estava em ti…


O tempo

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…Quando se vê, já é 6ª-feira…Quando se vê, passaram 60 anos!Agora, é tarde demais para ser reprovado…E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,eu nem olhava o relógioseguia sempre em frente… E • Read More »


O pobre poema

Eu escrevi um poema horrível!É claro que ele queria dizer alguma coisa…Mas o quê?Estaria engasgado?Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidadede quem, sem ler os jornais,soubesse dos seqüestrosdos que morrem sem culpados que se desviam porque todos os • Read More »


Matinal

O tigre da manhã espreita pelas venezianas.O Vento fareja tudo.Nos cais, os guindastes domesticados dinossauros – erguem a carga do dia.


Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do AnoVive uma louca chamada EsperançaE ela pensa que quando todas as sirenasTodas as buzinasTodos os reco-recos tocaremAtira-seE — ó delicioso voo!Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,Outra vez criança…E em torno dela indagará o povo:— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?E ela lhes dirá(É • Read More »


Espantos

Neste mundo de tantos espantos,cheio das mágicas de Deus,O que existe de mais sobrenaturalSão os ateus…


Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.Agora todos os caminhos vêmA casa é acolhedora, os livros poucos.E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.


Emergência

Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo — para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado.


Do amoroso esquecimento

Eu agora — que desfecho!Já nem penso mais em ti…Mas será que nunca deixoDe lembrar que te esqueci?


Deixa-me seguir para o mar

Tenta esquecer-me… Ser lembrado é comoevocar-se um fantasma… Deixa-me sero que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo… Em vão, em minhas margens cantarão as horas,me recamarei de estrelas como um manto real,me bordarei de nuvens e de asas,às vezes virão em mim as crianças banhar-se… Um espelho não guarda as coisas • Read More »


Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia…A vida assim, jamais cansa… Viver tão só de momentosComo estas nuvens no céu… E só ganhar, toda a vida,Inexperiência… esperança… E a rosa louca dos ventosPresa à copa do chapéu. Nunca dês um nome a um rio:Sempre é outro rio a passar. Nada jamais continua,Tudo vai recomeçar! E sem • Read More »


Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinhoNão o grites de cima dos telhadosDeixa em paz os passarinhosDeixa em paz a mim!Se me queres,enfim,tem de ser bem devagarinho, Amada,que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…


A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.Depois, a cada vez que me mataram,Foram levando qualquer coisa minha. Hoje, dos meus cadáveres eu souO mais desnudo, o que não tem mais nada.Arde um toco de Vela amarelada,Como único bem que me ficou. Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!Pois dessa • Read More »