Patativa do Assaré

Vida sertaneja

Sou matuto sertanejo, Daquele matuto pobre Que não tem gado nem quêjo, Nem ôro, prata, nem cobre. Sou sertanejo rocêro, Eu trabaio o dia intêro, Que seja inverno ou verão. Minhas mão é calejada, Minha péia é bronzeada Da quintura do sertão. Por força da natureza, Sou poeta nordestino, Porém só canto a pobreza Do • Read More »


Sina

Eu venho desde menino Desde muito pequenino Cumprindo o belo destino Que me deu Nosso Senhor Não nasci pra ser guerreiro Nem infeliz estrangeiro Eu num me entrego ao dinheiro Só ao olhar do meu amor Carrego nesses meus ombros O sinal do Redentor E tenho nessa parada Quanto mais feliz eu sou Eu nasci • Read More »


Saudade

Saudade dentro do peito É qual fogo de monturo Por fora tudo perfeito, Por dentro fazendo furo. Há dor que mata a pessoa Sem dó e sem piedade, Porém não há dor que doa Como a dor de uma saudade. Saudade é um aperreio Pra quem na vida gozou, É um grande saco cheio Daquilo • Read More »


O peixe

 Tendo por berço o lago cristalino, Folga o peixe, a nadar todo inocente, Medo ou receio do porvir não sente, Pois vive incauto do fatal destino. Se na ponta de um fio longo e fino A isca avista, ferra-a insconsciente, Ficando o pobre peixe de repente, Preso ao anzol do pescador ladino. O camponês, também, • Read More »


Minha viola

Minha viola querida, Certa vez, na minha vida, De alma triste e dolorida Resolvi te abandonar. Porém, sem as notas belas De tuas cordas singelas, Vi meu fardo de mazelas Cada vez mais aumentar. Vaguei sem achar encosto, Correu-me o pranto no rosto, O pesadelo, o desgosto, E outros martírios sem fim Me faziam, com • Read More »


Flores murchas

Depois do nosso desejado enlace Ela dizia, cheia de carinho, Toda ternura a segredar baixinho: — Deixa, querido, que eu te beije a face! Ah! se esta vida nunca mais passasse! Só vejo rosas, sem um só espinho; Que bela aurora surge em nosso ninho! Que lindo sonho no meu peito nasce! E hoje, a • Read More »


Dois quadros

Na seca inclemente do nosso Nordeste, O sol é mais quente e o céu mais azul E o povo se achando sem pão e sem veste, Viaja à procura das terra do Sul. De nuvem no espaço, não há um farrapo, Se acaba a esperança da gente roceira, Na mesma lagoa da festa do sapo, • Read More »


Desilusão

Como a folha no vento pelo espaço Eu sinto o coração aqui no peito, De ilusão e de sonho já desfeito, A bater e a pulsar com embaraço. Se é de dia, vou indo passo a passo Se é de noite, me estendo sobre o leito, Para o mal incurável não há jeito, É sem • Read More »


Caboclo roceiro

Caboclo Roceiro, das plagas do Norte Que vive sem sorte, sem terra e sem lar, A tua desdita é tristonho que canto, Se escuto o meu pranto me ponho  a chorar Ninguém te oferece um feliz lenitivo És rude e cativo, não tens liberdade. A roça é teu mundo e também tua escola. Teu braço • Read More »


Amanhã

Amanhã, ilusão doce e fagueira, Linda rosa molhada pelo orvalho: Amanhã, findarei o meu trabalho, Amanhã, muito cedo, irei à feira.Desta forma, na vida passageira, Como aquele que vive do baralho, Um espera a melhora no agasalho E outro, a cura feliz de uma cegueira.Com o belo amanhã que ilude a gente, Cada qual anda • Read More »


A verdade e a mentira

Foi a verdade e a mentira Nascida no mesmo dia, A verdade, no chão duro Porque nada possuía E a mentira por ser rica Nascer na cama macia E por causa disto mesmo Criou logo antipatia, Não gostava da verdade, Temendo a sua energia, Pois onde a mentira fosse A verdade também ia O que • Read More »


O poeta da roça

Sou fio das mata, cantô da mão grossa, Trabáio na roça, de inverno e de estio. A minha chupana é tapada de barro, Só fumo cigarro de páia de mío.Sou poeta das brenha, não faço o papé De argum menestré, ou errante cantô Que veve vagando, com sua viola, Cantando, pachola, à percura de amô.Não • Read More »