Caboclo roceiro

Caboclo Roceiro, das plagas do Norte

Que vive sem sorte, sem terra e sem lar,

A tua desdita é tristonho que canto,

Se escuto o meu pranto me ponho  a chorar

Ninguém te oferece um feliz lenitivo

És rude e cativo, não tens liberdade.

A roça é teu mundo e também tua escola.

Teu braço é a mola que move a cidade

De noite tu vives na tua palhoça

De dia na roça de enxada na mão

Julgando que Deus é um pai vingativo,

Não vês o motivo da tua opressão.

Tu pensas, amigo, que a vida que levas

De dores e trevas debaixo da cruz

E as crises constantes, quais sinas e espadas

São penas mandadas por nosso Jesus

Tu és nesta vida o fiel penitente

Um pobre inocente no banco do réu.

Caboclo não guarda contigo esta crença

A tua sentença não parte do céu.

O mestre divino que é sábio profundo

Não faz neste mundo teu fardo infeliz

As tuas desgraças com tua desordem

Não nascem das ordens do eterno juiz

A lua se apaga sem ter empecilho,

O sol do seu brilho jamais te negou

Porém os ingratos, com ódio e com guerra,

Tomaram-te a terra que Deus te entregou

De noite tu vives na tua palhoça

De dia na roça, de enxada na mão

Caboclo roceiro, sem lar, sem abrigo,

Tu és meu amigo, tu és meu irmão.

– Patativa do Assaré, em “Melhores poemas de Patativa do Assaré”. (Seleção e apresentação de Cláudio Portela). Rio de Janeiro: Global Editora, 2006


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