Minha viola

Minha viola querida,

Certa vez, na minha vida,

De alma triste e dolorida

Resolvi te abandonar.

Porém, sem as notas belas

De tuas cordas singelas,

Vi meu fardo de mazelas

Cada vez mais aumentar.

Vaguei sem achar encosto,

Correu-me o pranto no rosto,

O pesadelo, o desgosto,

E outros martírios sem fim

Me faziam, com surpresa,

Ingratidão, aspereza,

E o fantasma da tristeza

Chorava junto de mim.

Voltei desapercebido,

Sem ilusão, sem sentido,

Humilhado e arrependido,

Para te pedir perdão,

Pois tu és a jóia santa

Que me prende, que me encanta

E aplaca a dor que quebranta

O trovador do sertão.

Sei que, com tua harmonia,

Não componho a fantasia

Da profunda poesia

Do poeta literato,

Porém, o verso na mente

Me brota constantemente,

Como as águas da nascente

Do pé da serra do Crato.

Viola, minha viola,

Minha verdadeira escola,

Que me ensina e me consola,

Neste mundo de meu Deus.

Se és a estrela do meu norte,

E o prazer da minha sorte,

Na hora da minha morte,

Como será nosso adeus?

Meu predileto instrumento,

Será grande o sofrimento,

Quando chegar o momento

De tudo se esvaicer,

Inspiração, verso e rima.

Irei viver lá em cima,

Tu ficas com tua prima,

Cá na terra, a padecer.

Porém, se na eternidade,

A gente tem liberdade

De também sentir saudade,

Será grande a minha dor,

Por saber que, nesta vida,

Minha viola querida

Há de passar constrangida

Às mãos de outro cantor.

– Patativa do Assaré, em “Melhores poemas de Patativa do Assaré”. (Seleção e apresentação de Cláudio Portela). Rio de Janeiro: Global Editora, 2006.


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