Nothing

Nada nada nada

Nada mais do que nada

Porque vocês querem que exista apenas o nada

Pois existe o só nada

Um pára-brisa partido uma perna quebrada

O nada

Fisionomias massacradas

Tipóias em meus amigos

Portas arrombadas

Abertas para o nada

Um choro de criança

Uma lágrima de mulher à-toa

Que quer dizer nada

Um quarto meio escuro

Com um abajur quebrado

Meninas que dançavam

Que conversavam

Nada

Um copo de conhaque

Um teatro

Um precipício

Talvez o precipício queira dizer nada

Uma carteirinha de travel’s check

Uma partida for two nada

Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas

Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava

Um cão rosnava na minha estrada

Um papagaio falava coisas tão engraçadas

Pastorinhas entraram em meu caminho

Num samba morenamente cadenciado

Abri o meu abraço aos amigos de sempre

Poetas compareceram

Alguns escritores

Gente de teatro

Birutas no aeroporto

E nada.

– Patricia Galvão (Pagú), Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962.


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